quinta-feira, 3 de maio de 2018

Problematizando bullet journal

Na quarta-feira retrasada, antes de ir pra São Paulo, dei uma pequena surtada. Tava de frente pro meu notebook, com o bullet journal no colo, perdida entre os compromissos que insistiam em não caber naquelas datas desenhadas na agenda. Até o fim daquele dia, eu precisaria ir à academia, assistir a uma aula de quatro créditos, ler o texto para a aula em questão porque era o meu dia de debater o tema, arrumar minhas malas e deixar esqueletada a prova que eu teria que entregar na semana seguinte pelo moodle. Eram 17h. 

Larguei tudo e comecei a chorar. Quando me dei conta de como ridícula eu tava por estar chorando por um motivo que eu sabia ser desnecessário, chorei ainda mais - e quando percebi que eu já tava chorando há quarenta minutos, chorei mais um pouco por ter perdido tanto tempo derrubando lágrimas. De repente, uma vida se resumia a algumas horas. 

O Vini olhava pra mim, sem saber o que dizer. 

- Não dá mais, Vini, olha pra isso! - eu apontava para os planos de ensino abertos em pdf - Eu vou ter que abandonar esse curso. 

Foi angustiante. Como já havia perdido aquele tempo todo chorando, deixei tudo em cima da mesa e deitei na cama em posição fetal. Peguei o celular e mandei áudio pra minha mãe. Assim que enviei, me senti ainda mais tonta por ter 23 anos e enviar mensagem de voz chorando para aquela que me gerou.

- Mariany! - ela respondeu, em outro áudio, bem brava - Você pare já com isso! 

Trocamos mais algumas longas palavras. Quando dei por mim, ao me observar no reflexo do celular que produzia uma imagem à la contra plongée da minha cara descabelada e inchada, esbocei um sorrisinho. A vida parecia mais tranquila agora. Vini me olhou da mesa da sala e eu fiz um joinha com a mão. 

- Eu tô melhorzinha.

Esse texto não é exatamente sobre problematizar o bullet journal, mas sim redefinir - e problematizar também - a forma como lidamos com esse caderno. Acho que fica vago chegar aqui e falar um montão de coisas cujas causas não estão na existência desse mecanismo de organização. O problema tá na gente, como sempre. Tanto que essa angústia vai além de ter ou não um bujo. Tá presente em quase todos nós. É igual escrever um texto detonando a internet ao invés de discutir a maneira como lidamos com ela, entende?

Pois bem.

Percebi que ter acumulado tudo aquilo pra fazer em um fim de tarde não era minha culpa. Os dias anteriores, anotados no meu bullet journal, estavam completos de itens realizados. Não havia mais espaço pra nada, nem se eu quisesse. E eu queria. Tanto que, naquela manhã, tratei de enfiar mais trezentas coisas pra fazer antes da viagem, mas não deu. O que eu notei ali, sentada na cama, foi que tudo bem não dar

E além de 'tudo bem não dar', acrescentei um 'e isso não é errado'. Confuso? Formulei três estágios-de-necessidade-de-organização para exemplificar. São três fases que quase todo mundo passa:

1) Se eu não fizer tudo até o fim do dia eu sou um cocô - que, por incrível que pareça, eu já havia superado há tempos;  
2) Até tá tudo bem não fazer tudo, mas isso não é o ideal - exatamente o que eu estava vivendo;
3) Tudo bem não fazer tudo e não existe ideal - o grande ensinamento que obtive naquele dia

Não basta enfiar na cabeça que não vai dar tempo de fazer tudo o que foi programado para o dia se isso vier acompanhado da sensação de que esse mesmo dia não rendeu. O que é não render? Quem criou essa caralha? Quer dizer então que se eu quiser correr apenas oito minutos ao invés dos quinze que meu instrutor anotou no meu cronograma da academia, aquele treino simplesmente não rendeu? Se eu me propuser a comer torradinhas com queijo branco e azeite no café e naquele dia eu me atrasar e engolir um pedaço do bolo de cenoura do dia anterior, minha alimentação matinal não rendeu? Se a professora pedir pra gente ler cinco textos dos quais lerei dois e meio, então minha capacidade acadêmica não está rendendo?

Para afirmar que algo não rendeu, é necessário criar um ideal na cabeça, aquele ideal que a gente consegue seguir por três ou quatro dias para que no quinto nossa existência não renda e ele nem seja considerado um dia vivível. "Ah, hoje não rendeu muito, nem conta". É como se fosse um erro na programação, um pontinho fora da curva. Então, a gente pensa o famigerado "ai, vou ter que começar tudo de novo", como se aquela atitude diferente - a qual chamamos de fator-que-vai-fazer-meu-dia-não-render - fosse capaz de destruir tudo o que foi vivido antes de acordo com nosso planejamento.

O que mais vejo na internet hoje em dia, pelo menos no meu nicho, são vídeos ensinando a não procrastinar, a ter um dia mais produtivo, a acordar às 5h30 para dar conta das tarefas e conteúdos do tipo. Eu, particularmente, gosto de acessar essa temática, porque acho que me inspira bastante - adoro imagens de escrivaninhas organizadas. Ao mesmo tempo, é um tanto quanto perigoso se basear num vídeo editado todo bonitinho de uma garota do ensino médio que mora com os pais em outro país e acorda aos domingos de madrugada para ter um dia completamente produtivo. O que será que ela sente depois que termina de editar esse conteúdo e o publica? 

Por que concluir esses ciclos de metas nos dá a falsa sensação de  tranquilidade? Digo isso porque parece que nunca é suficiente. Por mais que eu acorde cedo em um fim de semana e faça tudo o que eu preciso, superando todos os meus limites de preguiça e sono, a sensação que dá antes de dormir é que aquilo ainda não acabou, que no dia seguinte vai ter mais, que nunca vai chegar o dia em que eu vou olhar pra trás e pensar "mano, como fui produtivona!". Tem sido muito mais incrível saber valorizar cada dia vivido, independentemente do meu grau de produtividade, porque não me prendo a nenhuma falsa ideia de paz. A paz está aqui, não importa quantos itens da minha agenda eu risque. Parece que tenho vivido mais plenamente porque tô focada no presente e não nesse futuro que nunca vai chegar. Que doido, né? 

A gente tenta fazer nossa rotina ser uma equação matemática, mas esquecemos que não somos números. O ser humano é todo zoado, cheio de inconsistências. Um dia a gente tá ótimo e inspiradinhos, no outro queremos apenas passar as horas vendo série de pijama. Por que só consideramos válido o primeiro caso? 

Isso não nasceu com a gente. Botaram na nossa cabeça. E se botaram na nossa cabeça, é possível tirar, mesmo que seja um pouco - ou o suficiente pra gente se sentir maravilhosinhos quando não conseguirmos completar as tarefas do dia. Mais importante que anotar os itens na agenda é selecionar os que serão possíveis realizar.