Cabelo curto

domingo, 3 de setembro de 2017

Cabelo sempre teve uma importância muito grande na minha vida. Nunca foi apenas um detalhe como outro qualquer. Era como se ele dissesse tudo sobre minha aparência, sabe? Se eu o achasse feio, consequentemente eu me achava feia.

Depois da transição capilar, consegui superar muitos problemas de auto-aceitação, mas ainda sim acreditava que minha força estava no meu cabelo. Nas fotos, era ele que se sobressaia. Era meu ponto de fuga. Mesmo quando eu o alisava, vivia jogando ele pro lado. Gostava de volume, de sentir os fios pesando na cabeça.


Não acho que sentir isso fosse errado, ainda mais depois da transição. Eu estava vivendo algo que nunca havia vivido, afinal, era a primeira vez que eu me sentia bonita sem precisar recorrer a formol, chapinha e duas horas de escova.

Pois bem: dizem que somos reflexo de nossas mudanças interiores. Talvez isso explique muita coisa. 

Eis que entrei pra essa onda de minimalismo. Tenho me desfeito, diariamente, de tudo o que me pesa na vida. Doei livros, roupas, objetos. Me afastei de lugares e de pessoas desagradáveis. Passei a evitar discussões que não me acrescentassem coisas positivas. Mudei meus hábitos alimentares e evitei botar para dentro de mim o que não me fazia bem. Tenho aprendido a dizer não e a aceitar que não posso fazer tudo o que eu gostaria de fazer. Aprendi a fazer yoga e semana passada comecei a academia. Percebi o quão importante é saber que não tenho responsabilidade sobre a idealização que as pessoas criam de mim, ainda que sejam pessoas que amo muito. Refleti sobre o amor. Desconstruí idealizações românticas e repensei a forma como conduzia meu relacionamento afetivo. 

Me olhei no espelho.
Senti vontade de mudar.
Pensei. E não foi só uma vez. 
Dias se passaram, até que eu resolvesse finalmente cortar algo que sempre teve um peso importante na minha vida.
Arrisquei e fui. 


Eu gostei tanto da sensação de leveza que o cortei novamente um mês depois, porque por incrível que pareça eu achava que ele ainda tava grande - dá pra notar a diferença, na imagem acima, entre a primeira e as demais fotografias

Eu não conseguia descrever o que senti ao cortar tudo aquilo de cabelo. Era mais que leveza e "mudar o visual". Me surpreendi, entretanto, quando descobri o que eu realmente sentia - logo eu, que adoro problematizações e debates sociais. Foi vendo este vídeo que percebi que minha decisão transcendia uma mera questão individual (deixei linkado a partir do minuto que interessa a esse texto, mas assistam ao vídeo completo depois, porque é bem legal). Foi um ato de resistência. Resistência porque eu sabia que eu não ia ser a Anne Hathaway, nem a mina do tumblr, se cortasse o cabelo. Resistência porque desde criança fui preterida em relação às meninas do meu círculo social, não importa se eu alisasse, deixasse natural ou cortasse. Resistência porque é um saco ouvir "por que você cortou o cabelo? ele era lindo!" de pessoas que a vida toda me incentivaram a tacar formol em cada fio. Resistência porque os comerciais de shampoo que hoje - por um motivo bem óbvio - passaram a incluir mulheres como eu,  nos estimulam a definir nossos cabelos a todo custo, com milhares de produtos e horas fazendo fitagem em frente ao espelho. 

Sei dos meus privilégios em ter pele mais clara e cabelo que cacheia, mas tudo isso foi um peso. Tem dias que ainda acordo, me olho no espelho e sinto que falta algo. É um processo constante de auto-reflexão e busca por referências positivas. 

Mesmo assim, cortar o cabelo foi uma das coisas mais incríveis que já fiz por mim. Foi uma experiência que significou demais na minha vida e me ajudou a reconstruir o grau de importância que eu dou para tudo o que me cerca - ou que faz parte mim. Talvez eu até deixe ele crescer novamente, mas tenho certeza de que nossa relação mudou completamente. 

Quando me sinto feia por não ter mais onde me esconder, eu respiro, conto até 10, preparo um café, boto uma música inspiradora e sigo. Não me permito mais ser refém desse tipo de coisa. Afinal, minha vida é mais que o meu cabelo. 

Manie
estudante de jornalismo, escritora por amor e professora nas horas vagas. 23 anos, moro em Floripa com meu companheiro e tomo muito café. amo cheiro de livro velho e sou gamada numa biblioteca. adoro vinho barato, noites frias. sou rolezera, mas também gosto de ficar em casa de buenas fazendo sopa.

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