Sobre ter um lar

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Era pra eu estar lendo texto de teoria do jornalismo agora, mas bebi muito café e tô inspirada a ponto de escrever e publicar um livro hoje mesmo - ou sei lá, abrir uma loja online de aquarelas que eu faria hoje antes de dormir mesmo nunca tendo feito nada do tipo. Isso acontece com vocês também? 

De qualquer forma, senti vontade de escrever aqui. Mais especificamente, escrever sobre como tem sido acolhedor finalmente ter um lar. 

Há dois anos e dois meses eu deixava o lugar onde vivi meus, até então, 21 anos. Encaixotei livros, roupas, objetos e vim pra outro estado. 

Durante muito tempo me cobrei de desapegar de lá. Mesmo assim, minha cabeça permaneceu em Santos por muito tempo, até eu acostumar que tava morando aqui e era aqui onde eu devia focar minhas energias. O que eu não percebi era que isso não dependia apenas de mim. Eu morei a maior parte desse tempo em uma pensão. Foi bom, vivi coisas boas lá, mas não era meu lar, entende?

Agora eu tô morando com meu companheiro. Ele resolveu vir pra cá sem saber ao certo o que faria quando chegasse. Também encaixotou as coisas dele e pegou o catarinense das 21h19 do dia 28 de janeiro desse ano. Resolvemos dividir um mini apartamento pra ver no que dava e eis no que deu: finalmente me sinto em casa. 
Em abril, viajei pra casa dos meus pais pela primeira vez desde que o Vini tinha vindo pra cá. Achei estranho sentir saudades daqui e me surpreendi ao me referir à "minha casa" como sendo o apartamento que a gente tava dividindo e não mais o apartamento dos meus pais. Não por estar vivendo com meu companheiro afetivo, mas por estar dividindo um lugar com uma pessoa que é minha amiga e por ter construído isso com ela, mesmo que inconscientemente. 

Falar nos meus pais me leva à outra reflexão, que tem tudo a ver com essa sensação de pertencimento. Eles saíram do apartamento onde moraram por treze anos - e onde eu morava antes de me mudar também - e foram viver com meus avós, na mesma cidade. Se eu paro muito pra pensar nisso, com um elvis no fone de ouvido, dá uma leve angústia, porque sou muito apegada às coisas materiais e é bizarro não ter mais aquele espaço pra voltar, ainda que fosse nas férias. Mas se paro pra pensar nisso racionalmente, me sinto leve. Afinal, eles pegaram tudo o que tinham - inclusive eles mesmos - e levaram pra outro lugar, onde vão construir novas lembranças. E, no final das contas, nosso antigo apartamento se transformou apenas em um conjunto de cimento e azulejos, porque quem fazia dele uma casa era a gente. 
Minha concepção de lar ganhou um novo sentido. Achei que nunca mais fosse me sentir em casa depois de sair da cidade natal. Creio que por isso foi tão difícil me desprender de lá. Não era apenas saudade da família, mas medo de nunca mais sentir que eu pertencia a algum lugar - afinal, é uma viagem sem volta. 

Hoje o melhor momento do dia é chegar em casa depois do estágio, tomar banho, passar um café e me deparar com a minha cama. Eu me acomodo em meio ao edredom e travesseiros, pego o meu notebook e me sinto acolhida. É tão bom. 

Manie
estudante de jornalismo, escritora por amor e professora nas horas vagas. 23 anos, moro em Floripa com meu companheiro e tomo muito café. amo cheiro de livro velho e sou gamada numa biblioteca. adoro vinho barato, noites frias. sou rolezera, mas também gosto de ficar em casa de buenas fazendo sopa.

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