Para mulheres que bebem, dançam e depois ficam mal

segunda-feira, 9 de outubro de 2017


Ontem eu vivi a pior ressaca da minha vida. Acordei 16h, já desanimada por ter perdido metade do dia dormindo. Fiquei o dia mal e quando anoiteceu eu percebi que não era só fisicamente. Eu tava com a famigerada ressaca moral.

Eu costumo refletir muito sobre mim e não costumo ignorar sentimentos, bons ou ruins. Sou muito crítica sobre as coisas e vivo me questionando sobre várias delas. Resolvi, então, perguntar a mim mesma porque eu estava mal daquele jeito. Angustiada, um tanto quanto arrependida. Sei lá, deu vontade de voltar no tempo e beber menos. Dançar menos. Me expor menos. Ficar menos vulnerável a pessoas que nunca vi na vida e das quais não lembro nem o rosto. Ficar mais de boas. Mais consciente. Mais séria, blasé, segura.

expectativa:


realidade:

Foi quando, procurando motivos pra não me auto-punir, percebi que essa vontade de ter me "controlado" mais não é um sentimento inato. Se eu fosse homem, talvez isso não acontecesse. Eu acordaria, me curaria da ressaca física e o baile seguiria. Pode ser que haja exceções, mas compará-las à pressão que eu, enquanto mulher, vivencio é um tanto quanto assimétrico, eu acredito.

"Mulher bêbada é muito feio". Quantas vezes a gente já ouviu isso? É bizarro como essas coisas entram no nosso inconsciente e definem nossos sentimentos, nossas conclusões. Pena que só parei pra pensar nisso ao fim do dia. Teria me poupado muita sensação de culpa, de sujeira.

Sempre acho que fiquei mais bêbada que meus amigos e que fui motivo de risada. Sinto que exagerei, que fui ridícula, que fiquei feia. Já imaginei minha maquiagem borrada e meus olhos vermelhos. Eu dançando funk sem pudor. Rindo demais. E quando essa sensação vem é como se toda minha inteligência desmoronasse. Como se tudo o que estudo e trabalho fosse o oposto de todas as músicas que me fizeram quicar no chão.

Eu poderia até falar - e já estou falando - que sei tocar o hino nacional no piano, que diariamente leio uma caralhada de texto acadêmico difícil, que pago meus boleto em dia, que nesse momento tô em dúvida se vou na BU e pego foucault ou virginia woolf. Poderia dizer, também, que sei dançar a coreografia completa de movimento da sanfoninha e canto direitinho chantaje, da shakira feat. maluma (ou maluma feat. shakira? não sei). Poderia, por fim, dizer que eu não gostaria de ver tudo isso como coisas opostas. Nem ter que provar nada. Muito menos afirmar, com esse parágrafo, que tudo bem beber se você estuda astronomia. Mas é assim, né. Mulheres tendo que provar que sabem polinômios e detalhes sobre a segunda guerra mundial para se sentirem um pouco melhor. Não devia ser assim. Eu não queria que fosse.

Estou na aula nesse momento, mas foi incontrolável a vontade de escrever tudo isso aqui, agora, para que outras mulheres também leiam e se sintam confortáveis, acolhidas. Como se eu desse um abraço quentinho em cada uma. Nós somos treinadas desde pequenas para sermos fofas. Meigas. Belas, recatadas, do lar. Quando desviamos milimetricamente dessa expectativa social, a chuva de culpa nos afoga. E não há motivos pra isso.

Vamos dançar, se quisermos. Vamos beber, se quisermos. Vamos cuidar do nosso corpinho no dia seguinte, quando a ressaca vier, tomando sopa e chazinho. Vamos ver filme na netflix ou cantar alto e desafinadas nossas músicas favoritas numa festa cheia de gente. Vamos quebrar a cara e prometer nunca mais beber e vamos beber novamente na semana seguinte, no mês seguinte. Vamos não beber também, se não quisermos. Nada disso define quem somos.

Manie
estudante de jornalismo, escritora por amor e professora nas horas vagas. 23 anos, moro em Floripa com meu companheiro e tomo muito café. amo cheiro de livro velho e sou gamada numa biblioteca. adoro vinho barato, noites frias. sou rolezera, mas também gosto de ficar em casa de buenas fazendo sopa.

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