Resiliência tem prazo de validade

domingo, 22 de outubro de 2017

Dia desses li um poema da Rupi Kaur que mexeu comigo. Na real, acho que doeu ler.

Eis:

como é tão fácil pra você
ser gentil com as pessoas ele perguntou

leite e mel pingaram
dos meus lábios quando respondi

porque as pessoas não foram
gentis comigo.

Como se não bastasse, me deparei com esses dois vídeos: esse e esse.

As palavras da Rupi, da Liliane e da Olivia só me fizeram enxergar a urgência em rever o que tenho cultivado na vida e a energia que tenho depositado em algumas atitudes e pessoas. 

O fato é que sou um poço de compreensão. Por pior que seja o que a pessoa faz comigo, eu tô sempre respirando fundo e procurando entender os motivos dela. Deve ter tido um dia ruim. Deve ter sofrido muito nessa vida. Deve ter acordado mal. Deve ter tido experiências desagradáveis. Não deve ter idade suficiente pra saber lidar com essas coisas. Eu que exagero. Eu que me preocupo com detalhes nada a ver. Eu que espero muito das pessoas. 

Então, eu perdoo. O que não aparenta ser algo ruim, afinal, não faz bem guardar mágoas e ressentimentos - isso é o que qualquer cartilha de auto-ajuda aponta. Mas é justamente esse o problema: eu esqueço as coisas rápido demais. 

Olha, sei lá, eu já devia ter ganhado o nobel da paz, na moral. 

Fico me perguntando até que ponto vale a pena justificar as atitudes das pessoas. Até que ponto vale a pena desculpar, perdoar, deixar pra lá, ignorar, seguir o baile, rir de coisas que não deviam ser motivo de risada. Até que ponto vale a pena me sentir adolescente quando eu devia me sentir mulher crescida que já aprendeu a driblar o que não lhe acrescenta algo positivo. 

Eu sempre coloco as pessoas antes de mim. Penso nos motivos delas e uso isso pra justificar o modo como elas me tratam.  

Mas e eu?
Eu vivi tanta coisa. 
Eu aguentei tanta coisa. 
Eu superei tanta, mas tanta coisa.
Por que eu tenho que ser gentil com quem não é gentil comigo?
Não dá mais.
Não dá. 

Comecei terapia semana passada, por nenhum motivo aparente. Só queria começar a me entender um pouco melhor. Pensei que fosse trocar uma ideia rápida e normal, mas a vontade que deu foi botar um colchonete na sala da psicóloga e morar lá. Foi tão bom. Voltei pra casa leve. Na real, fiquei orgulhosa demais de me ver cuidando tão bem de mim, sabe. Deve ter sido por isso que tive vontade de ficar mais tempo lá com ela, narrando meus babado tudo. O dia tava tão bonito.

Isso me fez repensar a importância que eu dou pra algumas coisas. Sinto que é hora de filtrar o que eu quero daqui pra frente. Tá, vão surgir algumas pedras que simplesmente vão passar pela peneira, mas o importante é percebê-las e arrancá-las, sem dó. Olha só, tô cheia das metáfora, segura essa Clarice Lispector.

Sei lá se isso vai fazer sentido pra você que tá lendo. Espero que sim. Vou tentar explicar: eu crio universos na minha cabeça. Alimento coisas que nunca vão acontecer, sabe? Viajo demais. Crio personagens de pessoas reais que fazem parte da minha vida. Atribuo a elas atitudes que elas jamais terão. Acredito demais no potencial de mudança das pessoas. Idealizo quem elas são e essas idealizações me inspiram, mas até quando? Será que não é melhor eu simplesmente parar de delirar e encarar a realidade? É tão melhor focar no que é incrível fora da minha imaginação, na vida real

Chega uma hora que não tem mais espaço para certas coisas e a vida faz a gente repensar o que a gente vem cultivando. O que a gente quer que se torne memórias no futuro. Chega uma hora que nosso corpo e mente imploram pra gente tomar jeito. Pra gente parar de fazer aquilo que insistimos ser ok, mas que nos machuca. Pra gente olhar com dureza pras coisas. Parar de deixar tudo entrar, cagar na nossa cabeça, desaparecer, voltar, zoar com a nossa cara como se nada tivesse acontecido.

Em algum momento, toda a paciência que você se esforça pra manter se torna insustentável, porque não dá pra aguentar tudo calado e sorrindo o tempo todo. Porque você não vai ganhar reconhecimento, nem gentileza. Porque aos poucos suas ilusões vão acabar com a sua paz. Porque você se impõe uma necessidade inabalável de seguir o baile quando ele nunca devia ter sido seguido.

Não dá mais pra se contentar com migalhas. Não dá pra justificar as atitudes dos outros o tempo inteiro como se eu fosse um poço de compreensão. Não faz sentido eu me forçar a ser compreensiva com pessoas que em momento algum se mostraram compreensivas com quem eu sou. E, definitivamente, eu não tenho que lidar com quem também devia fazer terapia e não faz.

Manie
estudante de jornalismo, escritora por amor e professora nas horas vagas. 23 anos, moro em Floripa com meu companheiro e tomo muito café. amo cheiro de livro velho e sou gamada numa biblioteca. adoro vinho barato, noites frias. sou rolezera, mas também gosto de ficar em casa de buenas fazendo sopa.

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