Era pra ser uma carta

domingo, 19 de novembro de 2017

Em março de 1989, meus avós se mudaram para o apartamento 97 de um conjunto habitacional em Santos. Minha vó ficou doida porque o prédio era de frente pro cemitério, mas meu vô levou numa boa e até hoje faz questão de dizer que mora de frente pro futuro. 

No apartamento ao lado, de porta vinho, vivia um casal que alguns anos depois teria uma filha, a Dessa. Eu nasci cinco meses antes dela e, desde que ela surgiu no mundo, somos amigas. Na época, ela cabia na palma da mão de seu pai, porque resolveu que de algum jeito seu signo seria escorpião e pra isso teve que antecipar seu nascimento. 

Crescemos juntas, mesmo nos momentos em que não estivemos tão próximas. Aprendemos a andar, a falar, a ler, a cantar, a dançar e a falar mal dos crush. Compartilhamos nossos gostos, ficamos de mal, ficamos de bem e jogamos objetos pela janela com a inocência de que a outra ia conseguir pegar do outro lado, no 9º andar do prédio. 

É tão incrível ver que a amiga com quem cantei evidências no karaokê do dvd da minha vó e inventei coreografias de hits antigos da Britney Spears hoje é uma adulta tão incrível - mesmo que o segurança dos pubs ainda peça a identidade pra ela. É incrível ver como nossos caminhos, ainda que tenham se separado devido à distância, continuam tão próximos.

Hoje, sinto que existe uma sintonia entre nossas mentes que de alguma forma nos faz refletir sobre as mesmas tretas antes mesmo de contar uma pra outra. Às vezes, basta eu olhar pra ela diante de alguma situação e pra ela sacar direitinho o que eu pensei naquele momento. Mesmo longe, quando vejo que tem áudio de 5 minutos no whatsapp, preparo até um chazinho porque sei que aquele não será o único. 

Quero registrar a minha mais sincera gratidão por todas as broncas e pelos milhares de "se tu for trouxa vou dar na tua cara" que ela me disse; pelos cafés, pelas tardes mofando juntas no sofá e pelas festas que fizeram a gente berrar dançando as músicas da nossa adolescência; pela ajuda que ela me deu para que eu aprendesse espanhol o mais rápido possível e pelo "ah, foda-se, vai ter outra oportunidade" que ela me enviou quando eu disse que não tinha passado no intercâmbio; pelas risadas de doer a barriga e pelos momentos em que não pudemos dizer nada além de um "aff"; pela alegria do caralho que a gente sentiu quando uma viu a outra passar no vestibular na mesma época; pelos infinitos "eu só acho engraçado que..."; pelos rolês que a gente chegou cedo e viu que só tinha a gente na fila; pelos abraços e por todas as conquistas dela, que também são minhas.

Quando eu era criança e minha mãe dizia que conhecia tal pessoa há vinte anos, eu achava o máximo. "Vinte anos é muito tempo", eu imaginava. Hoje, quando penso na minha amizade com a Dessa, me vejo na fala da minha mãe: tenho uma amiga há 23 anos.

Era pra ser um presente de aniversário focado só na Dessa, mas acabei falando mais da gente. Parando pra pensar, até que isso faz sentido. Afinal, todo aniversário dela é também aniversário da nossa amizade. 

Manie
estudante de jornalismo, escritora por amor e professora nas horas vagas. 23 anos, moro em Floripa com meu companheiro e tomo muito café. amo cheiro de livro velho e sou gamada numa biblioteca. adoro vinho barato, noites frias. sou rolezera, mas também gosto de ficar em casa de buenas fazendo sopa.

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