Sobre fazer escolhas

segunda-feira, 6 de novembro de 2017


Tomar decisões nunca foi fácil pra mim. Não por medo do caminho que decidi escolher, mas por ter que abdicar de outro caminho ao decidir por este. A impressão é que existem infinitas possibilidades e me apegar a apenas uma sempre deixou angustiada. 

Foi quando comecei a considerar que isso não me fazia bem. Eu, que sempre disse ser uma pessoa que mergulha profundamente nas vivências, de repente me vi com as águas pelo joelho. Quando dei por mim, estava vivendo toda a minha vida em banho-maria e percebi que não optar por isso ou aquilo já era optar por algo: viver na superfície das coisas. 

Eu nunca assisti Mr. Nobody, mas já vi Efeito Borboleta e sei que os dois filmes tem a ver com essa pira de "e se eu não tivesse escolhido esse caminho?". Cada escolha feita, ainda que seja de forma inconsciente, te conduz a um determinado caminho. O que eu pensei foi: ao invés de pensar em como teria sido se minha atitude tivesse sido outra, por que não assumir pra mim mesma que foi esse o caminho que eu quis viver e que ele tem um monte de coisas incríveis que merecem ser sentidas intensamente?

Ao mesmo tempo, saber que praticamente nenhum caminho é definitivo nos dá tranquilidade para abandonar os que nos fazem sofrer. Para abandoná-los, é preciso fazer outras escolhas, que não necessariamente anularão nossa escolha anterior de vivê-los. O importante é viver tudo o que faz o coração bater daquele jeito forte, permitindo que todas as consequências de nossas escolhas apareçam e nos abracem.

Não dá pra viver tudo e somente se isso fosse possível a gente teria certeza de qual dos caminhos é o melhor. Mas pra isso acontecer, tendo em mente que a gente faz escolhas grandes e pequenas a todo o momento, teríamos que viver mais que a Terra - e, ainda sim, esqueceríamos das primeiras escolhas, já que o tempo ofuscaria a maioria delas.

Se você pensar, tudo é uma possibilidade. Ganhar na mega, ser astronauta, saber tudo de yoga ou projetar uma montanha russa. Morar no interior, morar num trailer, morar num apartamento de 15m² no centro da cidade. Falar cinco idiomas, ser caixa de supermercado, saber tocar flauta, correr uma maratona. Casar, não casar, ter filhos biológicos, adotar, não ter filhos, ter um cachorro, ter um peixinho.

Para viver qualquer uma dessas coisas, é preciso escolher. Algumas dessas escolhas não necessariamente precisam durar até o final da minha vida. Pode ser que eu mude de ideia, quantas vezes por necessário. O que importa é que escolhi e me permiti viver cada momento, num mergulho profundo capaz de dar cor à vida.

Eu vou sentir o gosto da batata recheada mesmo sabendo que poderia ser sushi e vou amar poder comer aquilo. Vou tirar foto nas calçadas de Ouro Preto mesmo sabendo que poderia estar em qualquer outro lugar do mundo naquele instante. Vou aprender a falar espanhol mesmo sabendo que naquele momento eu estarei adiando a oportunidade de me capacitar a assistir Amélie sem legendas. Eu vou acordar amanhã, olhar para o lado e ver meu companheiro, mesmo sabendo que, naquele momento, poderia ser ali qualquer um dos bilhões de humanos que existem no planeta - ou nenhum deles - e vou me sentir grata por me permitir amá-lo, sem medo de me sentir presa. Que tudo isso seja intenso e verdadeiro. Porque foi o que eu escolhi.

E isso nem era pra parecer final de oração ou de filme, mas eu tô tão levinha que ficou parecendo. 

Manie
estudante de jornalismo, escritora por amor e professora nas horas vagas. 23 anos, moro em Floripa com meu companheiro e tomo muito café. amo cheiro de livro velho e sou gamada numa biblioteca. adoro vinho barato, noites frias. sou rolezera, mas também gosto de ficar em casa de buenas fazendo sopa.

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