terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

O que eu aprendi assistindo "Ela quer tudo"


"If I didn't define myself for myself, 
I would be crunched into other people's fantasies for me 
and eaten alive." | Audre Lorde

Passar uma imagem séria e forte para impor respeito costuma ser necessário em alguns momentos. A gente que é mulher sabe ainda mais como isso funciona. Se você é mulher e negra então, o negócio triplica. Não basta fazer, tem que provar que sabe fazer. O que a gente não sabe é que essa força não se sustenta só com aparência. Foi quando eu descobri o quão maravilhoso é trabalhar isso dentro da gente, para que essa força soe sincera quando externalizada. Talvez isso seja o que a gente chama de autoestima

Vocês já sentiram que postar selfie lacradora no instagram, por exemplo, definitivamente não diz nada sobre a nossa autoestima quando isso se resume apenas na ação de postar? Pelo contrário: só deixa a gente frustrado. É muito mais bonito quando a gente tá num processo incrível de autoconhecimento e alimentação do nosso amor próprio, porque aí sim esse cuidado vai refletir nos autorretratos que a gente fizer. É aquele ditado, né: de dentro pra fora.

Demora pra perceber tudo isso, infelizmente. A gente é ensinada que o correto é ser dócil, amável, compreensiva, aquela amiga que ta ali pro que der e vier. O que não ensinaram pra gente é que o retorno disso quase sempre é nulo. A real é que a gente aguenta calada várias merda. É hipersexualização dos nossos corpos, é homem que acha que tá ok apertar nossa bunda no meio de festa, é amigo te chamando de louca e exagerada só porque você se impôs um pouquinho e, como se não bastasse, a obrigação de explicar que tudo isso é errado pra quem sempre nos fez sentir uns lixo. 

Quando a gente cria consciência disso, nasce uma vontade louca de lutar contra isso. E tentando lutar contra isso, a gente se frustra ainda mais. Afinal de contas, como criar uma força que nunca nos foi ensinada? Qualquer 'não' que a gente fala soa super afrontoso e mal educado. Além de dizer não, a gente se vê obrigada a explicar o porquê desse não com palavras fáceis e didáticas. O cansaço emocional de enfrentar  o que nos machuca é somado à necessidade de fazer surgir uma disposição insuportável pra explicar o porquê de estarmos agindo assim. É um duplo gasto de energia.

O resultado é uma vida tentando explicar pros outros as nossas ações ou no máximo fingindo que não nos importamos - quando no fundo nos importamos muito. É difícil se desvincular totalmente da expectativa alheia e saber lidar com isso de uma forma com que não nos afete tanto. É um trabalho diário e requer muito autoconhecimento. O que nos faz voltar à ideia inicial desse texto.

Autoconhecimento  faz a gente buscar força em si mesmo e não nos outros. Com ele, a gente aprende a lidar com os problemas de uma forma mais madura e isso inclui aprender a dizer não. Tudo isso é um processo. Um processo que talvez leve a vida toda. Mas pra mim é esse o sentido de viva: buscar melhorar sempre, principalmente pra mim mesma. 

Quando a gente começa a pensar nessas coisas, parece que tudo flui melhor. As pessoas vão te perguntar como tá sua vida e a resposta não vai ser mais "ah, meu namoro tá ok, minha amiga já melhorou da gripe...". A resposta será "cara, to meio desanimada hoje, mas consegui fazer aquela torta que te disse e ficou ótima!". Sabe por que? Porque você não vai se apoiar nas pessoas que te cercam. Vai perceber que no fundo, pra que tudo o que te cerca funcione bem, é preciso que você esteja buscando o melhor de si mesmo. 

Botar tudo isso pra fora foi um parto, porque nunca é fácil explicar em palavras essas piras que se misturam na nossa mente, né? Foi exatamente isso que eu senti ao terminar de assistir "Ela quer tudo", uma série da Netflix que me fez me identificar muito com a protagonista. Cada momento de alegria e dificuldade que ela enfrentava eu dizia um 'simmmm' pra mim mesma como se eu também tivesse vivendo aquilo. Ah, nem preciso dizer me sentir empoderada num grau inimaginável. Assistam! Talvez seja a porta pra vocês se permitirem pensar mais em si mesmas sem culpa.


Ela quer tudo (She's gotta have it) é uma série de dez episódios que narra o dia-a-dia de Nola Darling, uma jovem artista recém formada que mora num pequeno apartamento maravilhoso, que se relaciona com mais de uma pessoa ao mesmo tempo. É inspirada em um filme de 1986 de mesmo nome, dirigido pelo mesmo direto - Spike Lee - que eu ainda não assisti, mas não vejo a hora. 

Essa série me fez pensar sobre muitas outras coisas além de conhecer a si mesma, mas isso tudo vai ser tema pra outros textos. O que quero deixar aqui é que Ela quer tudo é uma série inspiradora, motivante, que te faz pensar muito em si mesmo e em sua relação com o mundo. Era definitivamente o que eu precisava pra começar o ano de verdade. 

Manie
estudante de jornalismo, escritora por amor e professora nas horas vagas. 23 anos, moro em Floripa com meu companheiro e tomo muito café. amo cheiro de livro velho e sou gamada numa biblioteca. adoro vinho barato, noites frias. sou rolezera, mas também gosto de ficar em casa de buenas fazendo sopa.

talvez você também goste:

0 comentário (s)