segunda-feira, 25 de junho de 2018

O (quase) desencontro

arte: bruna mebs

Fechei o guarda-chuva e entrei no café, as sacolas da livraria junto ao colo. Dois pés para dentro e já me sentia inspirada, tanto pelas luzes amareladas como pelo cheiro de canela que exalava no ar. Das caixas de som, saía uma melodia bonita de acordeon - ou de sanfona que fala francês. Passei pelo caixa, adentrei o corredor dos pães e logo subiu outro cheiro, dessa vez dos que haviam acabado de sair do forno. Dentre as várias opções, peguei o napolitano, meu favorito: rodelinhas de pão com queijo, tomate e manjericão. Levei à balança e busquei com os olhos algum lugar livre, que encontrei instantes depois em uma mesa perto da janela. Aguardei o café. 

Abri o livro e retomei a leitura da parte em que a Teodora dizia que não era palhaça.

- Eu não sou palhaça, Alfredo.

Mergulhei de volta à trama da qual me abstivera momentos antes, ao sair da livraria. Era impressionante como o carteiro fingia que aquela conversa não era com ele. O tempo todo demonstrando afeto pela protagonista, pra no fim das contas fazer a pêssega. Segundo ele, era tudo delírio da cabeça dela.

- Média com leite - anunciou a garçonete, que pousou sobre a mesa a xícara e a comanda.

Dei um gole, com cuidado pra não queimar a boca, e olhei pra frente. O carteiro me lembrava a professora de inglês, que parecia me dizer com os olhos a cada início de aula, desde o momento em que começava a explicar o novo vocabulary: "tô muito afim de ti". Ela não tava. 

Cerca de dez segundos depois, percebi que havia passado o devaneio olhando pr'um cara sentado à mesa da frente, não muito longe. Que droga. Bonitinho ele. 

Desviei o olhar e tentei retomar a leitura. Tarde demais, já havia me desconcentrado. Voltei a encará-lo no instante em que ele parecia desviar de mim o olhar. Em sua mesa, um expresso puro. Seu campo visual variava entre o próprio café e a prateleira de torradas. Então, ele voltava a me observar. Fiquei incomodada, mas apreciei o breve momento. Longas pausas em diálogos e olhares de desconhecidos estavam na lista das coisas que mais me deixavam desconcertada. 

Ele sorriu e eu, sem graça, respondi ao sorriso. Demorei um pouco, porque estava prestes a engolir meu café com leite. Pensei sobre essa pequena demora e o quanto ela fez de mim um tanto boba. 

Em questão de segundos, levantou da cadeira e caminhou devagar em minha direção. Engasguei com o café. 

- Felipe? - perguntou uma moça que vinha da entrada, andando um pouco apressada. Ela vestia exatamente o mesmo casaco que o meu: bordô com bolinhas em amarelo ocre. - Perdão pela demora. 

Ele olhou pra ela surpreso e voltou os olhos a mim, confuso. Antes de ir ao encontro da impontual, pude ouvi-lo dizer, em tom quase inaudível:

- Opa. 

Manie
estudante de jornalismo, escritora por amor e professora nas horas vagas. 23 anos, moro em Floripa com meu companheiro e tomo muito café. amo cheiro de livro velho e sou gamada numa biblioteca. adoro vinho barato, noites frias. sou rolezera, mas também gosto de ficar em casa de buenas fazendo sopa.

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