segunda-feira, 9 de julho de 2018

O booktube como espaço catártico

arte: rachel levit
Tava aqui tomando um café, depois de passar a tarde toda limpando a casa - afinal, férias também servem pra isso -, quando caí em um canal literário que ainda não conhecia. Ele tem o nome de sua criadora, a canadense Ariel Bissett.

São vídeos gostosinhos de ver, sabe? Há um equilíbrio entre edição bonitinha e bom conteúdo. O único detalhe, que pode ser um problema para algumas pessoas, é que os vídeos estão em inglês. Por esse motivo, não quis simplesmente chegar aqui e jogar o link de algum deles e falar: olha que legal!! 

Eis que abro um vídeo dela chamado Is Booktube Eductional?, no qual ela discute sobre o papel educativo dos canais literários do Youtube - e se esse papel realmente existe. Ele tá ali no final do post, mas o meu objetivo hoje é mais do que compartilhar algo legal: quero dizer o quanto esse vídeo me fez pensar em coisas maravilhosas. 

Existem mil teorias sobre os benefícios/malefícios da internet e eu poderia ficar horas falando sobre isso, mas não é o ponto hoje. Basta dizer que eu acredito muito no potencial positivo que ela possui, especialmente quando falamos de educação. Boa parte dos meu estudos pré-vestibular, por exemplo, foram feitos pela internet, em plataformas como o Descomplica. O que eu sentia sobre esses espaços, na época, era mais do que um lugar para estudar. Eu me sentia acolhida, em meio a todas aquelas pessoas que estavam ali vendo aula de matemática ao vivo em uma sexta-feira de manhã.

Quando eu penso em canais literários - ou no booktube, como é chamado esse ramo do Youtube -, eu lembro justamente do caráter acolhedor que a internet pode oferecer, ainda mais quando falamos de literatura, um assunto que ainda é visto como algo inalcançável e incompreensível por muita gente. Há quem diga que abordar literatura no Youtube é um trabalho raso e insuficiente, cheio de "olha só quanto livro bonito eu tenho" e pouca profundidade. Para essas pessoas, deixo o questionamento: onde tá essa profundidade tão defendida? 

Existem canais literários que eu não acompanho, justamente porque sinto esse "li oitocentos livros em cinco horas sou foda me amem não entendi nada mas tô aqui pra mostrar minha estante oi", mas acredito que resumir o booktube a esses casos é pensar de forma ainda mais rasa, quadrada, simplista; é resumir, de um jeito bastante ignorante e preguiçoso, uma plataforma cheia de conteúdo literário incrível. Quem costuma fazer esse tipo de análise são as mesmas pessoas que acham que essa tal profundidade só existe no ambiente acadêmico. 

Particularmente, me incomoda muito essa ideia de que a academia é um lugar para conversas super profundas. Eu conto nos dedos os debates em que eu senti que realmente aprofundei um tema até o talo, sabe? Parece que eu nunca termino de aprofundar nada porque sempre vem trezentas outras coisas pra estudar. Inclusive, quando comecei a encarar essa questão a partir de outra perspectiva, passei a exigir menos da universidade o que ela não pode me oferecer. Não é ali que vou aprofundar alguma coisa. As aulas, assim como debates e encontros acadêmicos em geral, são oportunidades de abrir portas para uma profundidade que eu só vou adquirir posteriormente, sozinha. São recortes, pequenas dosagens teóricas, amostras bibliográficas.

Como admiradora de canais literários - e pessoa que vez ou outra grava um vídeo sobre literatura - eu sinto que o booktube é um espaço catártico. Ali é um dos lugares onde consigo transmitir o que eu senti ao ler determinado livro ou refletir sobre tal assunto, seja quando gravo ou, principalmente, quando comento nos vídeos alheios. Ou ainda, quando eu falo sobre esses vídeos no meu próprio blog, como estou fazendo agora. O booktube, em geral, é uma oportunidade de me sentir conectada a pessoas que também amam literatura e que não necessariamente se formaram na área. É uma forma que encontro de não explodir.

Mano do céu, me dá um negocinho aqui no coração - talvez um princípio de infarto - quando eu acumulo um monte de coisa só pra mim. É uma delícia se sentir inteligente, mas e aí? O que faço com toda essa teoria e toda essa literatura que li? Guardo? Oi, moça, você vai querer quantos pães? Ora, senhor padeiro, aguarde um minuto enquanto consulto minha ampla bibliografia sobre panificação aplicada. 

Onde eu quero chegar com esse papo? Eu amo falar sobre o que leio. A academia tá cheia de gente que tá entupida de um monte de conhecimento e juro pra vocês que a sensação é que se eu tocar eles, eles explodem. Fora que eu tenho pavor desse rolê de doutor-incrível-cânone e tudo mais. Fico sempre pensando em quem decide isso. Sei lá, no fundo são pessoas que assim como eu tomam banho, fazem cocô, choram as pitanga com as crise existencial, compram pão no fim da tarde, ficam em dúvida sobre qual filme assistir diante do catálogo da Netflix. A diferença é que elas - algumas somente hipoteticamente rs - estudaram um pouco mais sobre determinado assunto. Enfim, talvez isso seja conversa pra outro texto.

Isso tudo pra dizer que o vídeo da Ariel me fez pensar em muita coisa. Acho delicado dizer que a internet é um espaço hiper democrático quando a gente tem no Brasil pouco mais da metade da população com acesso à rede. Por isso, prefiro dizer que há diversas formas de incentivar a literatura, e uma dela são os canais literários. É um espaço não só para leitores amadores, mas pra pessoas que inclusive trabalham com literatura e educação se sentirem abraçadas, ampliarem a mente. É um espaço onde a gente pode falar sobre livros com liberdade. É um espaço pra gente botar tudo pra fora e não explodir, porque se for depender do ambiente acadêmico pra isso, rânei, tipo assim, tamo lascado. 


fotografia da menina lendo por: Ramón Masats

Manie
estudante de jornalismo, escritora por amor e professora nas horas vagas. 23 anos, moro em Floripa com meu companheiro e tomo muito café. amo cheiro de livro velho e sou gamada numa biblioteca. adoro vinho barato, noites frias. sou rolezera, mas também gosto de ficar em casa de buenas fazendo sopa.

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