quarta-feira, 4 de julho de 2018

Um livro bem escrito que vai te fazer passar um nervosinho

Primeiro dia de férias, 1h13 da manhã, frio, silêncio. Foi nesse contexto, na sala de casa, que terminei de ler Pergunte ao Pó, romance do estadunidense John Fante publicado pela primeira vez em 1939. Eu havia lido um conto do escritor pra uma disciplina na faculdade e me interessei pela forma como ele escreve, então busquei na biblioteca outra coisa dele pra ler.  Antes mesmo de chegar em casa, li o prefácio. Humm, escrito pelo Bukowski. Vamos ver do que se trata. 

O livro é narrado pelo protagonista Arturo Bandini, um rapaz com de vinte anos no qual me deu vontade de dar um chacoalhão - e acho que é por isso que resolvi escrever sobre esse livro. Eita cara chato! Desculpa, John, nada contra sua obra, nem tenho pretensão de te resumir a um romance, muito menos a uma personagem, mas vem cá... Foi proposital criar um rapaz tão insuportável ou você realmente botou fé que ele era fodão? Espero, de coração, que tenha sido a primeira opção. 

Arturo Bandini mora num quarto de hotel barato, onde passa a maior parte do tempo se sentindo culpado por não conseguir fazer brotar da máquina de escrever algo que preste. A única coisa que escrevera, até então, havia sido um conto chamado "O cachorrinho riu", o qual ele mesmo fizera questão de considerar obra prima da literatura mundial. Enquanto alimenta o próprio ego com a imagem boêmia que criara de si mesmo - gostaria de ter essa autoestima -, o escritorzão mal tem dinheiro pra pagar o leite que bebe e se afunda numa pobreza romantizada, que vez ou outra atinge seu limite quando Arturo solicita aquela ajudinha à mãe. 

Então ele conhece uma garçonete, a Camilla Lopez, que depois de ser humilhada por ele em serviço não se rende à tão inabalável áurea do protagonista. Com a masculinidade ferida, ele volta várias vezes ao tal do Collumbia Buffet, onde a moça trabalhava, e em algumas delas nota certa reciprocidade à sua necessidade de atenção. A trama se desenrola e o que surge desse rolê é um relacionamento completamente conturbado e confuso. 

O que me prendeu até o fim da trama foi a escrita do Fante. Incrível, sério. Eu ainda acho que ele construiu todos esses capítulos só pra ter uma desculpa pra mostrar como escrevia bem. Perdi as contas de quantas vezes eu me peguei rindo em voz alta, seja das cenas bem construídas ou das sacadas geniais nos diálogos. Em algumas momentos eu até esqueci da imaturidade de Arturo Bandini e permiti acompanhar suas aventuras pra ver no que aquilo tudo ia dar. 

Tem uma cena em que batem na porta de Arturo. É o vizinho do quarto ao lado, o velho Hellfick, que vivia enrolado em seu roupão, bebendo gim barato e pedindo dinheiro emprestado ao Bandini. Ele comenta que tem um amigo leiteiro que toda madrugada sobe em seu quarto pra beber gim com ele e deixa o caminhão de leite aberto lá embaixo. Como o nosso escritor-incrível está morrendo de fome, agradece a dica do vizinho e aguarda a madrugada chegar pra poder roubar um pouco de leite. Enquanto espera, fica nervosão e até pensa em desistir, mas os roncos em seu estômago falam mais alto, literalmente. Eis uma parte desse capítulo, um dos que mais gostei:

''Aconteceu finalmente: eu ia me tornar um ladrão, um barato ladrão de leite. Aqui estava o seu famoso gênio que não deu em nada, seu escritor de um conto só: um ladrão. Segurei a cabeça nas mãos e balancei para a frente e para trás. Mãe de Deus. Manchetes nos jornais, promissor jovem escritor apanhado roubando leite, famoso protegido de J. C. Hackmuth arrastado para o tribunal sob acusação de pequenos furtos, repórteres enxameando ao meu redor, flashes estourando, dê-nos uma declaração, Bandini, como foi que aconteceu? Bem, amigos, foi assim: vocês sabem, eu tenho realmente muito dinheiro, grandes vendas de manuscritos e tudo mais, mas estava escrevendo uma história sobre um sujeito que rouba um litro de leite e queria escrever a partir da experiência, pois foi isto o que aconteceu, amigos. Fiquem atentos à reportagem no Post, dei o título de 'Ladrão de leite'. Deixem-me seus endereços e vou mandar-lhes cópias de cortesia.''

Arturo Bandini me lembrou bastante o Holden Caulfield, de "O Apanhador no Campo de Centeio", numa versão mais velha. Agora que acabei o livro, talvez sinta falta de rir daquela fantasia toda que ele criava ao redor de si mesmo. Sei que há outros livros do Fante com essa personagem, mas acompanhar Bandini uma vez, para mim, já foi suficiente. 

Quase não achei resenhas desse livro na internet, o que me decepcionou porque queria muito saber a opinião de outras pessoas. Gostaria de saber o que acharam de Arturo, se acham que Camilla era aquilo que ele nos apresentou e como interpretaram o final, que pra mim ficou um pouco confuso. 

Manie
estudante de jornalismo, escritora por amor e professora nas horas vagas. 23 anos, moro em Floripa com meu companheiro e tomo muito café. amo cheiro de livro velho e sou gamada numa biblioteca. adoro vinho barato, noites frias. sou rolezera, mas também gosto de ficar em casa de buenas fazendo sopa.

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