domingo, 19 de agosto de 2018

O tal do feminismo interseccional

Ainda me iludo bastante dentro da pequena bolha em que me encontro. Assuntos que considero exaustivamente debatidos de repente parecem bastante desconhecidos em outros círculos. Pensando nisso, resolvi propor uma reflexão aqui no blog. Caso você já tenha pensado nisso, sugiro que pense novamente; se você nunca parou para pensar no assunto, fico feliz em plantar aqui a sementinha dessa reflexão.

Sojourner Truth foi escravizada durante a maior parte de sua vida e até hoje é um dos maiores nomes da luta abolicionista. Em 1851, durante o Women’s Rights Convention em Akron, nos EUA, proferiu um discurso que, na minha opinião, é a  forma mais didática para compreender a importância das intersecções. Deixei o link no fim do texto.

No semestre passado, cursei uma disciplina da faculdade chamada "Jornalismo e Gênero", que me instigou a questionar sempre de quem estou falando, seja ao escrever uma reportagem ou ao conversar com os migo na mesa do bar. Por exemplo, quando eu digo que no século XX as mulheres começaram a sair do ambiente doméstico para garantir certa independência ao ir trabalhar, é necessário que eu me questione de quais mulheres estou falando. Nem preciso pegar livro de história para responder: basta que eu lembre de minha avó, negra e pobre, contando como foi começar a trabalhar aos oito anos nas chamadas casas de família. Em nenhum momento isso foi narrado por ela como sinônimo de independência, especialmente porque não partiu dela a decisão. 

Cada vez mais eu reparo na tendência que temos em universalizar experiências - e como isso é problemático. Eu cresci tendo acesso a uma forma de ensino eurocêntrica e, por conta disso, bastante masculina, branca e elitista - que vou chamar aqui de "visão dominante" para facilitar a compreensão. Essa maneira de enxergar o mundo me fez atribuir neutralidade ao "ser homem", "ser branco", "ser heterossexual" e tantos outros "ser" que a gente considera o ponto zero de qualquer discussão. 

Lembro de uma colega de classe que resolveu escrever uma reportagem em quadrinhos sobre a dificuldade em ser jornalista mulher e ficou meio insegura quanto ao tema. "Parece que tô sempre militando, mas ao mesmo tempo não consigo sair disso". Hoje eu saberia o que responder a ela: não há como sair disso, porque isso é você.  Não deveria ser uma questão escrever a partir da perspectiva de uma mulher - e aqui acrescentamos outras características que a constituem, como ser branca e bissexual, por exemplo - quando a maior parte do que está ao nosso redor é narrado a partir da visão dominante. Por que somente uma dessas perspectivas é vista como militante, exagerada, dramática, desnecessária? 

Há quem diga que já entendeu tudo isso. "Intersecções? Adoro!", diz a galera desconstruidona que vai a uma palestra da Djamila Ribeiro e acha que já sacou qual é. Perceber que a neutralidade que nos fizeram decorar é masculina e branca muita gente já percebeu, mas ainda tem quem reproduza essa mesma lógica ao debater feminismos, por exemplo. Dia desses em uma disciplina que na qual me matriculei neste semestre, me vi em meio a uma discussão de como foi para as mulheres alcançarem a esfera pública no século XVIII e como era difícil elas exigirem participar da política ao invés de ficarem em casa bordando ou passeando de carruagem. A partir disso, as alunas - maioria mulheres, todas brancas - se empolgaram e acrescentaram suas ideias no debate, que se ampliou para questões de maternidade, gravidez precoce, amizade e outros tópicos, todos a partir da vivência de, obviamente, mulheres brancas. Não sei porque ainda me surpreendo.

A primeira vontade que me deu foi de interromper a discussão e perguntar de que mulheres todo mundo tava falando, mas me senti acuada. A sensação que deu foi "minha querida, você não tinha nem que estar aqui". O clima no debate era de uma leve euforia, como se todas estivessem de certa forma desabafando e se sentindo contempladas por cada desabafo. Sendo assim, por que atrapalhar? Lembro que cheguei em casa e dei aquela choradinha básica, me questionando o porquê de ter me matriculado naquela aula depois de ter passado o semestre anterior desconstruindo um montão de coisas e me sentindo acolhida nas discussões da outra disciplina - mencionei que a professora de Jornalismo e Gênero era uma mulher, negra e lésbica? Acho pertinente mencionar. 

Depois que me acalmei, consegui centralizar meus pensamentos. Era óbvio que, durante a discussão, foi falado somente das mulheres europeias brancas daquela época, a maioria de classes altas, mas por que em nenhum momento houve a necessidade de sequer afirmar isso? Sei lá, não dói nada iniciar um debate deixando evidente de quem a gente vai falar. Mesmo em conversas sobre século XIX no Brasil, por exemplo, já cansei de ver galera falando do ponto de vista de homens brancos e ricos sem ao menos dizer "oi, rapaziada, vamos falar sobre homens brancos e ricos". É como se isso fosse a norma e a gente é treinado a mencionar somente o que foge a ela. A sensação que dá é que já foi naturalizado em nossa mente que negras e negros estavam escravizados nesse período, então para quê mencionar isso, não é mesmo? Só falamos de negros no dia 20 de novembro e de mulheres no dia 8 de março - o que nos leva a concluir que, partindo de uma forma de pensar que não consegue estabelecer intersecções, falar de mulheres negras é algo que ocorre praticamente nunca. 

No ambiente universitário, há quem se esforce e coloque uma palestrinha sobre mulheres negras em um seminário acadêmico, depois de outras doze mesas sobre mulheres na arte, mulheres e tecnologia, mulheres na literatura. De que mulheres foi falado em todas essas apresentações? Não é necessário muito esforço para descobrir quem são. Pois então que mudem o nome das outras doze mesas para mulheres brancas na arte, mulheres brancas e tecnologia... Soa mais honesto, né? Costumo dizer que isso parece aquela prateleira na farmácia onde, ao lado de shampoo para crespos, shampoo para lisos, shampoo para oleosos (...), está o shampoo para homens. Ué. Eles não tem cabelos lisos, crespos, oleosos? 

Intersecção é você entender que ser mulher e ser negra não são características que conseguem ser analisadas separadamente. Não tem essa de "agora vamos falar de gênero" e "ok, agora vamos debater raça". Falar de gênero no Brasil é falar de raça, de classe. Não existe segregar o movimento quando ele é construído com base em um único olhar. Tem quem vire os olhos e ache chato ter que fazer esse tipo de recorte, porque é obviamente muito mais confortável falar de si mesmo e ignorar todo o resto. 

Minha mãe disse esses dias que vem nascendo em mim uma vontade louca de vingar minhas - e meus - antepassadas, visto que essas questões raciais são recentes na construção da minha identidade. Realmente. Tenho consciência de que tenho muito mais concessões do que outras alunas negras, mais pobres e mais um monte de coisas do que eu. Porém, é inevitável essa sensação de deslocamento. É um trabalho diário que definitivamente não depende só da gente. Falar de questões raciais - assim como questões de classe, orientação sexual, identidade de gênero... - não é obrigação exclusiva de negras e negros. É responsabilidade de toda a sociedade, inclusive dentro de debates aparentemente simples dentro de uma universidade federal. 

Para entender mais sobre intersecções, eu sugiro a leitura desse texto

Manie
estudante de jornalismo, escritora por amor e professora nas horas vagas. 23 anos, moro em Floripa com meu companheiro e tomo muito café. amo cheiro de livro velho e sou gamada numa biblioteca. adoro vinho barato, noites frias. sou rolezera, mas também gosto de ficar em casa de buenas fazendo sopa.

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