sexta-feira, 27 de novembro de 2020

todo ano a mesma treta da amazon (este não é um texto fofo. estou brava)

quando chega época de black friday, renasce (na minha bolha do instagram) o debate: comprar ou não comprar livros na amazon. o que quero aqui não é explicar os motivos que me fazem passar longe desse site, nem apontar o dedo na cara de seus clientes. essa é uma discussão muito complexa, com milhares de fatores que a contextualizam. então não, não dá pra ser rasa. hoje, aqui no meu blog, o que eu quero é simplesmente desabafar. nada melhor que escrever para não explodir.

o que me deixa pistola não é ver gente compartilhando as promoções dessa empresa, muito menos receber de amigos meus links de livros muito abaixo do preço (porque eles fazem isso com a melhor das intenções, justamente porque sabem que eu amo ler). meu papo aqui não é com você que assina coisa da amazon, ou que compra coisa da amazon, foda-se a amazon. o capitalismo é zoado e cada um escolhe suas batalhas. 

o que me tira do sério é ver gente, que tá ligada do rolê, relativizando uma empresa como essa e zoando quem tá ali fazendo a rapaziada pensar. qual o intuito de debochar de gente que grava stories falando "ei, tu precisa mesmo desse livro tão barato? vem cá, vamos pensar outras formas de consumir as histórias que tu gosta de ler". portanto, eu fico brava é com essas pessoas que, todo ano, usam a famigerada frase 'ah mas tem gente que mora em lugar que não tem biblioteca e livraria e (...)'. 

me incomoda ver essas pessoas usando o que eles chamam de 'a galera pobre' pra justificar o próprio comodismo. ou a falta de vontade de pensar mais a fundo. essa ideia de 'ah, mas a pessoa pobre que pega busão às 4h e lalala' é usada pra passar pano pra empresas, pra gente rica; é usada pra ir contra ideias consideradas, muitas vezes hilariamente, 'radicais'. sinto que tem quase um 'fetiche' em criar na própria mente essa persona pobre sem capacidade crítica e recorrer a ela sempre que for útil para si mesmo. e isso é com tudo, irmão. com terapia, com yoga, com veganismo, com qualquer hábito saudável. dá vontade de chegar pra essa galera que relativiza uma discussão tão complexa e questionar: eai, ceis tem medo do quê quando empacotam pra si uma coisa que também é nossa? 

e eu não vou nem falar sobre quem usa a desculpa de que vivemos num sistema capitalista pra manter hábitos totalmente destrutivos contra si, contra as pessoas e contra o planeta. o ponto é: sim, a gente vive num sistema cagado. e eu, manie, escolho minhas batalhas. não pra ser um ser humano 'melhor' ou 'perfeitinho', mas porque eu simplesmente não consigo botar minha cabeça tranquilamente no travesseiro se ignoro o que tá ao meu alcance. se você não quer escolher as suas, pelas mais diversas razões, você é livre para manter silêncio. pra ficar deboas. pra fingir que não é contigo. só não me venha usar os meus pra justificar ideias preguiçosas que tu criou. isso me deixa brava para um caralho

a 'mulher negra mãe de 2 sobrecarregada moradora de periferia com rotina atribulada que pega busão pra fazer seus corres' pra você é uma entidade distante; pra mim, é minha mãe. é muito simples pra vocês usarem essas personas com as quais vocês nunca trocaram meia palavra pra pagar de desconstruído quando, no fundo, vocês tão é nem aí pra gente.  

se tem mana pobre, do meu lado, que compra na amazon, isso não é uma questão. assim como não é uma questão se essa mesma mana baixa pdf no google do livro que quer ler. mas eu troco ideia com os próximos a mim e com um monte de gente que eu nem conheço mas que me acompanha nas redes sociais porque gosta da forma como enxergo a literatura. nesses espaços, eu falo disso abertamente, porque meu objetivo é aproximar as pessoas da leitura de forma saudável e consciente. 

a gente, que passa a infância e a adolescência sem poder pagar trinta reais num livro, tem uma autoestima intelectual fodida desde criança. a gente acha que essas coisas não são pra gente. perto de vocês, a gente muitas vezes já se sentiu burro. mas a gente não é burro, irmão. a gente é inteligente pra caralho. enquanto vocês acham que papo de 'desconstrução', 'instrução', 'reflexão' e 'autocuidado' não é pra gente, a gente tá fazendo revolução a cada dia. teus pais te ensinaram o que é weber, foucault e sei lá mais o quê porque tinha na estante da tua casa antes mesmo de você saber o que é castelo ra-tim-bum, chaves. a gente teve que correr três vezes mais pra fazer o caminho contrário e hoje ficar feliz ao ver os nossos em espaços de legitimação de saber. 

não menospreze nossa capacidade crítica. não acha que só você entende o que a vitória do boulos significa pro país. não subestime a capacidade dos meus em entender que sim, poxa, dá pra se alimentar direitinho - e bem mais barato - sem gastar com carne. não pense que os meus não entendem o livro da angela davis que você comprou (na amazon? será?). 

pra essa galera que relativiza - que quase sempre é, assim como eu, produtor de conteúdo literário pra internet -, deixo o aviso: em vez de defender a amazon, vamo pensar juntos em formas criativas de incentivar a leitura. para de contabilizar quantos livros tu leu no ano, ninguém se importa. bora parar de achar que ler oito livros por mês é sinônimo de inteligência. bora fazer as pessoas pensarem: bora mandar a real e trocar ideia. bora ajudar a galera a não se endividar no cartão de crédito porque comprou um monte de coisa nesses sites bizarros. bora falar que ninguém precisa ter pressa pra ler, que isso não é uma maratona. bora derrubar o pedestal no qual um dia enfiaram a literatura. bora contribuir pra criação de gerações mais conscientes do seu papel na sociedade. 

e se tu chegou até aqui querendo me cancelar, deixo o último recado: bora enxergar quem é o verdadeiro inimigo.

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