terça-feira, 14 de junho de 2022

de volta à superfície, reaprendo a nadar

este primeiro semestre passou por cima de mim igual onda grande, dessas que a gente acha que vai escapar passando por baixo. a pressão de fora me tomou por dentro e um aperto agudo me atravessou. lá no fundo, eu ouvia sons desbotados sem discernir quem falava, o que falava, como era dito. tudo era um borrão distante e eu parecia longe de mim. eu havia me deixado na superfície, inerte, enquanto eu mesma afundava cada vez mais. vez ou outra, ouvia uma risada apagada vinda lá de cima, um quentinho distante. o esforço para subir, todavia, me arrebatava sozinho, como se não coubesse a mim tentar. como se o próprio esforço fugisse das minhas mãos. afundei. 

teve dia que, ao preparar o jantar, me doía o peito de repente. então, eu desligava o fogo, a comida cozida pela metade, e me recolhia no sofá, onde me cobria com uma manta macia. não demorava e as lágrimas vinham, pesadas. no whatsapp, me perguntavam se estava tudo bem e me dava ainda mais vontade de chorar. quando dei por mim, havia passado meses de recolhimento no mesmo canto do sofá, a televisão na globo transmitindo coisa qualquer que me fizesse menos sozinha. ri de novelas ruins, assisti a um bbb sem graça, vi a guerra pelo jornal nacional. 

notaram, numa terça-feira ao fim do dia, que eu precisava de companhia. mais que isso, ajuda. me apropriei da soberania que ainda restava em mim, abri a conversa no celular e confirmei. quando terminou o expediente, o henrique, meu namorado, desviou o caminho de casa e veio até mim. pediu lámen, trouxe dois livros e um abraço apertado. um dos exemplares era uma coletânea de crônicas do machado de assis chamada bons dias. fingi que acreditava no que o título dizia e botei fé no meu fingimento. mesmo sem vislumbrar luz no fim daquilo que me consumia, me permiti ser acolhida. aceitei ajuda. jantamos, assistimos crescidinhos, da netflix. me senti em casa, na minha própria casa. reparei que além do henrique, outras pessoas queridas estavam por perto. li suas mensagens, aceitei afagos, mesmo a distância. eu não estava sozinha e isso era muito.

olhando do presente, enquanto tomo café depois do almoço, percebo que via nesses meses tortuosos uma pausa na existência. parece que não vivi, sabe? e é doido, porque se tem uma coisa que fiz, no meio de toda a desesperança possível que me abateu desde janeiro, foi viver. tirei de mim uma força impetuosa pra acordar, fazer meu pão na chapa, ligar o computador para trabalhar. até mesmo entender que haveria dias de produção quase nula me exigiu coragem, assombrada pelo medo de me descobrirem deprimida e me demitirem por improdutividade. hoje, de fora, acho insana essa ideia. fiz muito com pouco. 

amei dois filmes: les nuits de la pleine luneich bin dein mensch. li tudo é rio, da carla madeira, e grifei todinho. assisti aos dois últimos filmes da trilogia antes do amanhecer e achei chatos (podia ter ficado só no primeiro, impecável). conheci pelo menos dez cafeterias em são paulo. de longe, o texto ladainha da sobrevivência, da yasmin santos - publicado na serrote -, foi um dos mais bonitos dos últimos tempos. me formei jornalista na ufsc. recebi da editora a primeira versão revisada do meu livro. tive a experiência catártica de ter participado de uma oficina de microcontos e outra de crônicas ministradas pela tayná saez, do sutilezas atômicas. aprendi a fazer banoffee.  fiz aulas de yoga da pri leite e até que fui bastante à academia. passeei pela paulista. descobri que a mistura de doce de leite + coco + macadâmia crocante, do bacio di latte, é divina. quando reparei, tava voltando a ver beleza na sombra que a janela faz na parede do meu quarto pela manhã. 

me surpreende pensar que, enquanto estive submersa, havia vida. perceber o próprio movimento mesmo na pausa me ajuda a entender que todos esses meses não foram tempo perdido. longe de mim romantizar a dor, mas mesmo nela há o que se notar. peguei a angústia não como algo a ser aniquilado, mas compreendido. confesso que ainda falta muito a entender sobre ela, mas estou contente por tê-la acolhido em meus braços e entendido que o que eu via como hiato era, na verdade, parte do todo. 

estou e estive viva. nada parou. as ondas continuam a me cobrir, mas eu, que sou ligeira, mergulho de um jeito que me permite voltar para pegar fôlego. ao mesmo tempo, não sou ingênua e sei que em outro tempo pode ser que eu me afaste novamente da superfície. só que, diferente de antes, tentarei lembrar que eu não vou estar lá em cima, longe de mim: estarei comigo, mesmo no fundo, reaprendendo a nadar mais uma vez.

terça-feira, 3 de maio de 2022

as coisas prendem a respiração

o ano virou estranho. num pulo, fui parar em maio. e que pulo danado de difícil foi esse, hein? aqui dentro, um monte de coisa quer ganhar vida. ideia de curso pra fazer, oficina de escrita pra dar, livro novo pra escrever, viagens pra ticar da agenda, passeios em cafeteria nova pra desbravar, episódios de podcast prontos para serem gravados, sabonete esfoliante na prateleira da loja de produto artesanal esperando ser comprado. vontades que aos poucos destravam como se pedissem licença pra aflorar justo num momento que não cabe flor. quero muito e posso pouco. querer não basta. no meio disso, perdi meu vô. só não me entrego ao desespero porque estou cercada de amor, mas tem dias de muito desânimo, de louça na pia, de nós no cabelo. dias em que me falta qualquer perspectiva. vazio. estou tentando construir aos pouquinhos um jarro bonito com pedaço de vidro quebrado. por enquanto, a única possibilidade é a paciência. quando der, apareço aqui de novo.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

eu não faço a menor ideia do que fazer em 2022

ano novo tem dessas, né? um monte de coisa na cabeça e ao mesmo tempo nada. sinto como se minha vida fosse uma folha de papel em branco e alguém tivesse jogando um monte de caneta bic pra eu escrever alguma coisa. de mim, nada sai. planos parecem improváveis, não consigo prever nada além do que vou comer no almoço -- e ainda assim, tem dias de ifood. mando mensagem pros amigos e tá todo mundo na mesma. de um deles veio um conselho que tem me ajudado: parar de pensar no que farei no ano e começar a pensar no que farei no dia. ousada que sou, cogitei pegar um pedaço do meu próximo domingo para organizar almoços da semana seguinte. porém, fora os fatores gastronômicos, permaneço focando apenas nas horas que tenho depois que, com muito custo, me levanto da cama. deu certo um dia, no outro um pouco mais. hoje, acordei melhor. me inscrevi em curso de escrita porque não aguento mais só trabalhar, respondi email da farmácia de manipulação sobre orçamento da minha vitamina b12, li um pouco no sofá. na agenda, uma lista de filmes que parecem legais impede que eu passe um tempão rolando o netflix e termine vendo novela ruim da globo -- fala sério, aquelas três irmãs tratando os mesmos problemas-super-sem-graça como se fossem homéricos, há trocentos capítulos, me fazem confirmar o quanto gente rica é insuportável. sigo sem a menor ideia do que fazer em 2022 e isso tem me angustiado um tiquinho menos. me agarro com urgência ao cotidiano, lembrando que é nele que as coisas acontecem. agora, por exemplo, vou trabalhar. 
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