quinta-feira, 1 de julho de 2021

pega o que é teu

escrevi este texto depois de me deparar com essa preciosidade no instagram.


o racismo no brasil é um projeto que deu certo. tão certo que as pessoas preferem discutir se anitta é ou não negra em vez de entenderem de uma vez por todas que o inimigo é outro. 

eu me descobri negra há pouquíssimo tempo, assim como faz pouquíssimo tempo que passei a ter coragem de falar abertamente sobre isso. tinha medo de parecer que eu tava ocupando um rolê que não era meu, como se até aquele momento, aos vinte e poucos anos, eu tivesse sido branca e, por conta disso, não tivesse sofrido racismo. não tivesse propriedade pra falar sobre. até então, eu vivia num não-lugar: muito branca pra ser preta, muito preta pra ser branca. 

minha descoberta enquanto negra foi impulsionada pela transição capilar, pelo acesso à universidade pública, pela construção de uma rede de apoio de alunas negras do jornalismo da ufsc. só que eu pensava que essa mudança era apenas sobre me enxergar a partir de uma nova perspectiva. era como se o racismo fosse interferir em minha vida somente dali em diante, comigo consciente de quem eu era. até que comecei a fazer terapia e a compreender que praticamente toda a minha existência foi marcada pelo fato de ser negra. o racismo não esperou eu me descobrir racialmente pra fuder com a minha cabeça.

em uma palestra sobre "o pardo e o racismo", que vi na ufsc numa tarde em que saí do trabalho e corri pra não pegar ônibus cheio, me apresentaram dados que me ajudaram a perder o medo de dizer que eu sou negra. na palestra, mostraram que pessoas pretas e pardas (consideradas negras pelo ibge) estão muito mais próximas em vários levantamentos estatísticos do que pessoas pardas estão de brancas. a ideia de que pardos são quase-brancos foi construída propositalmente no pós-abolição, pra gente pensar que o rolê era nosso e repudiar qualquer marca de negritude em nossos corpos. foi preciso uma palestra na faculdade para eu descobrir que 1) o rolê nunca foi meu e 2) se eu vivesse no período escravocrata, eu, manie, seria escravizada. isso me abalou de um jeito que, sei lá, nem sei o que dizer. vou mudar de parágrafo.

é proposital que a gente não se considere negro. é proposital que a gente se cale, que a gente não fale e nem pense sobre isso. te fazem achar que nada é pra você, que você tá sempre num limbo, que não é nem isso, nem aquilo. da mesma forma que te fazem achar que cada conquista tua foi sorte, que nem precisa comemorar tanto assim. quando realizei meu sonho de infância de me graduar em jornalismo e me mudar para são paulo, achei que não era nada de mais. eu literalmente estico meu pescoço da janela e vejo o masp, mas sei lá, nada de mais. apenas rolou. pior: pode acabar a qualquer momento, porque em breve descobrirão que eu sou uma farsa. esse negócio de sonho não é pra mim não. iludida, mores.

até que, dias antes de eu completar 27 anos, bateu. não lembro o que causou, mas sei que comecei a pensar no quanto eu sempre me vi não apenas inferior a um monte de gente, como também fora da minha própria vida. era como se, desde criança, eu visse minha existência passar por mim em um bonde e eu, sempre de fora, acompanhasse tudo como observadora. não me sentia parte das amizades, duvidava quando me achavam legal, me sentia analisada o tempo todo nos mais cotidianos diálogos como se a qualquer momento eu fosse ser desmascarada. um professor me elogiava e eu achava que era acaso, alguém dava em cima de mim e eu sabia que aquilo só tava acontecendo porque a pessoa não viu outra (branca rs) do meu lado. porque é isso que acontece quando uma pessoa branca, especialmente que tenha gostos parecidos com os meus, chega perto de mim: eu desapareço.

e não é só coisa da minha cabeça não. é exatamente esse o ponto. te fazem achar que é pura insegurança, que é síndrome da impostora ou qualquer merda dessas, quando na verdade é racismo. cresci me achando feia e burra na presença de outras pessoas. minha beleza e inteligência só faziam sentido pra mim na solidão. gravava facilmente vídeos longuíssimos sobre literatura latinoamericana, batom vermelho na boca e café caro na xícara, me achando bonita e capaz. mas se as paredes do meu quarto caíssem e atrás delas eu visse uma plateia cheia de manies brancas, ricas e tão leitoras quanto eu, minha autoimagem positiva se esvaía. e eu sumia junto. 

somente agora, aos 27 anos, eu compreendo isso. somente agora eu entendo porque tive uma crise de pânico na flip em 2019 e achei que fosse morrer depois que uma mulher-branca-cheia-de-livros-na-mão pensou que eu era a garçonete e me pediu uma mesa, mesmo eu estando nitidamente vestida de um jeito que destoava completamente das demais funcionárias. somente agora eu compreendo porque passava horas em frente ao espelho antes da escola para torrar meu cabelo até ele ficar igual ao da zooey deschanel. somente agora eu entendo porque olho de baixo para cima para quase todo mundo ao meu redor, porque acho que serei demitida a qualquer momento, porque acredito que todo mundo que viu a defesa do meu tcc naquela noite de dezembro só tava ali por piedade. isso não é síndrome da impostora. isso é efeito do racismo. 

descobrir tudo isso me encheu de vida. me sinto forte como nunca. abaixo para pegar os caquinhos e colar tudo com cuidado. agora, eu me olho no espelho, a cabeça erguida, e tomo pra mim o centro da minha própria existência. penso no quanto minha vó estaria orgulhosa de mim e decreto que esta sim é a verdadeira redenção de cam, não por eu ter nascido mais clara, mas por finalmente ter a possibilidade de sonhar de um jeito que meus antepassados não puderam. 

diante do meu reflexo, respiro fundo.

"eu faço parte", repito.

todo santo dia. 

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