quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

Dos detalhes cotidianos que a ansiedade transforma em monstros

Tava aqui tomando meu café com leite e ouvindo a Lili Prata refletir sobre a vida, algo que ela sempre faz muito bem no seu canal. Assim que o vídeo dela terminou, abri essa caixa de texto. Deu vontade de compartilhar com vocês o que eu tirei daquela conversa porque me vi muito no que ela disse.

Eu sou ansiosa e passei boa parte da vida sem saber lidar com isso. Só de uns meses pra cá é que me dei conta do quanto essa condição me fazia mal e parei de procurar respostas fora de mim para os meus problemas. Passei a olhar para dentro.

Não é fácil lidar com o que habita em nós, né? Afastar o ego de lado e ir fundo naquilo que nos deixa pra baixo. De qualquer forma, tem sido uma descoberta incrível conhecer o que me deixa angustiada, desde a coisa mais simples até a mais cabulosa. E geralmente são as mais simples que dão vergonha de encarar. A gente se sente bobo. 

Quer um exemplo? Resolvemos trocar o guarda-roupas daqui de casa. Um móvel vinho de puxador prata, meio velhinho já. Ele veio junto com o apartamento que alugamos, e na hora que bati os olhos nele não simpatizei. Não era o que o pinterest me apontava como bonito na época em que eu sonhava em sair da casa dos pais. Acontece que não dava pra trocar por outro e nesses dois anos em que vivemos no mesmo apartamento, parei de focar minha energia no tal do armário - é o que eu faço sempre que não dá pra mudar algo na hora que quero. 

Eis que agora vamos poder comprar um novo. E assim como muitas coisas que eu adoraria fazer, a primeira sensação é de desespero. Minha ansiedade começou quando pensei que teria que a) tirar tudo de dentro do armário e arranjar lugar pra por, b) pedir pro proprietário do ap vir em casa nos ajudar a desmontar o armário, c) resolver junto a ele o que fazer com o armário, d) receber os entregadores do novo armário e e) receber os montadores. 

Na segunda-feira, sempre que pensava no guarda-roupas novo, rapidamente a alegria da novidade se dissipava e vinham na mente todas essas tarefas - que eu insistia em ver como empecilhos. Então, nada no dia ficava tão bom. Acabei sendo ríspida com pessoas e comigo mesma também. Andei meio borocoxô, pedindo à deusa que fizesse os dias seguintes passarem rápido. 

Parece bobeira, né? Foi o que eu disse lá em cima: quanto mais bobo aparentar o que nos faz sentir mal, menos queremos trazer aquilo à tona. Ninguém gosta de se sentir ridículo. Só que a vida tem me feito aprender que, para eu me sentir tranquila, tenho que perder o medo de parecer - seja lá o que for. Enquanto a gente não arranca da raiz o que nos deixa mal, só para não parecer algo, aquilo permanece na gente e nos impede de fazer coisas simples no dia-a-dia, como dar bom dia pro motorista ou chegar em casa sem querer dar uma voadora na primeira pessoa que aparecer na frente.

Respirar fundo. É o que eu aprendi a fazer quando me dou conta de que estou ansiosa. Ontem, parei o que eu tava fazendo e deitei na cama. O Vini tava bolado também porque tinha acabado de quebrar os óculos e veio deitar do meu lado. Ficamos ali de barriga pra baixo, com cara de paisagem. Contei a ele o que o rolê do guarda-roupas tava causando em mim e assim que botei pra fora aquilo pareceu ter evaporado. Primeiro porque esqueci completamente que o Vini também mora aqui e que, obviamente, faria tudo aquilo comigo - eu sempre acho que vou resolver todos os problemas do mundo sozinha, o que me deixa frequentemente com taquicardia. E, claro, porque todas aquelas "etapas" desesperadoras deixaram de ser obstáculos assim que falei delas. Me senti boba, mas achei bom ter me sentido boba, porque eu fiquei leve. Meu coração desacelerou. Aquela noção de futuro próximo não me angustiou mais. 

Desde que o ano virou, comecei a escrever em um diário. Não faço regularmente, apenas quando sinto que tô desse jeito. Nem sempre dá vontade de falar pra alguém o que a gente sente, ainda mais quando é algo muito abstrato, confuso, difícil de explicar. Então eu escrevo. A dica é se despir de qualquer vulnerabilidade: hoje senti inveja de fulano porque tal e tal coisa

A gente aprende que é feio sentir algumas coisas, mas ninguém nos ensina o quão necessário é lidar com elas. Não falar delas não faz com que desapareçam. Como dizia Dumbledore, "sempre chame as coisas pelo nome que têm. O medo de um nome aumenta o medo da coisa em si". 


A sensação, assim que termino de escrever ou falar, é de total leveza. Que pena não ter descoberto isso antes.

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