sábado, 9 de março de 2019

O instagram e o medo de não participar do que estão todos participando


arte por: min kyung

[nos fones agora: essa cantora maravilhosa que sempre me acalma]

Muito tenho lido sobre FoMO (do inglês fear of missing out = medo de estar perdendo algo). É aquela sensação de ficar para trás caso não esteja o tempo todo online, sabe? No meu caso: ser a última a saber da existência de tal livro ou a ter tal brusinha legal ou a usar aquela máscara facial produzida artesanalmente que parece incrível. E, nesse ponto, confesso que estou bem melhor do que há algumas semanas. Foi um trabalho árduo, mas algumas mudanças pontuais - como tirar o instagram da página inicial do celular e até desinstalá-lo por um dia inteiro - têm me ajudado nessa jornada.

No entanto, tenho reparado que não é só o medo de perder algo que me deixa angustiada quando o assunto é rede social. Mais do que isso: é a sensação de não estar participando do que estão todos participando na vida real.

Um bom exemplo é o carnaval - e bota bom exemplo nisso! No ano passado, vi muita gente festejando em suas cidades, com fantasias lindíssimas e fotos mais incríveis ainda. Resolvi que também queria, mesmo nem sendo tão carnavalesca assim. Eis que fiquei doente um dia antes do feriado prolongado e tive que tomar comprimidos enormes de antibiótico (o que para mim é um pesadelo, porque não consigo tomar comprimidos sem achar que vou morrer engasgada). Mesmo sem poder beber coisinhas alcoólicas, resolvi ir em algum bloquinho legal no meu país Santos, porque era lá que eu estava, de visita à família.

Tasquei-lhe a tiarinha de unicórnio na cabeça e pendurei à tiracolo o copo de canudinho - que era última moda na época no instagram - e lá me mandei, com minha miga, rumo à casa de outra miga para irmos as três para o bloquinho. E então, a deusa lá de cima me olhou e disse "a senhora não vai" e, quando eu pisei no ônibus, caiu uma chuvona daquelas. Quando descemos no ponto, a rua estava alagada. Foi caminhando com água pelos joelhos que chegamos à casa da miga, que eu tinha acabado de conhecer, e foi pelada no seu box que a cumprimentei:

- Muito prazer, Manie!

Lembro que passamos a tarde toda conversando e tomando café, todas com roupas da dona da casa. A chuva parou. Quando anoiteceu, nossos looks carnavelescos já secos, fomos para outro ponto da cidade onde haveria festinha de carnaval. Acontece que lá não tinha música, exceto pela mistura de hits que saíam de umas dez JBLs. Minutos depois, decretamos que o rolê tava chato e fomos embora.

Esse foi meu carnaval 2018. Agora, vamos falar de 2019.

Surgiu a oportunidade de ir para São Paulo e, como não aprendi nadinha nessa vida de um ano para o outro, me deixei influenciar pela galera carnavalesca do meu instagram. Fiquei na casa da minha amiga Dessa, a mesma com quem peguei aquele busão no ano anterior. Ela não tava ligando muito para as festas - certíssima -, mas eu botei na cabeça que eu precisava participar daquilo. Lá fomos nós pro primeiro bloco.

Descemos na estação República e de lá não saímos. Não dava pra se mexer de tanta gente que tinha. Voltamos para o trem e paramos na estação seguinte, de onde caminhamos até a rua onde rolava a festa. Quando notamos, fomos atropeladas por uma multidão que não sabíamos de onde veio e permanecemos seguindo o fluxo por mais de uma hora. Bateu crise de ansiedade no meio da muvuca? Bateu. O que eu fiz? Nada. Não tinha o que fazer a não ser seguir no fluxo. Quando achamos uma saída, senti a vida retornar para meu corpo. Pegamos o metrô de volta pra casa.

No dia seguinte, acordei quebrada. O meu pé parecia ter sido batido no liquidificador. Depois de ver um monte de stories que pareciam gritar na minha cara "não é pra parar, vai pular carnaval já!", resolvi que não eram eles que eu ia ouvir. Olhei pra cara da Dessa, que queria tudo menos se enfiar em outro bloquinho, e nosso combinado foi simplesmente passear pela cidade. Se a gente trombasse com algum bloquinho onde fosse possível se mexer, a gente parava para aproveitar e ver qual é. Foi o que fizemos.

Descemos na Higienópolis–Mackenzie e fomos tomar um muito maravilhoso brunch (chiquérrimas) no Jardin do Centro (ó aí um rolê fruto de influência digital que valeu super a pena!). Lugar aconchegante, cheio das plantas, comida gostosa, ar condicionado.

De lá, descemos pra Augusta, sem saber o que teria, e nos deparamos com um bloquinho muito legal. Tomamos umas brejinhas - 2019 não teve antibiótico! - e demos aquela dançada básica. Deu uma hora, cansamos. Fomos andando até a Paulista, onde paramos em um shopping para fazer xixi e seguimos para a Livraria Cultura, um dos meus lugares favoritos da vida. No caminho, a Dessa discutiu com o vendedor de milho que não quis fazer por 5,50 o milho de 6 reais ao invés de trocar minha nota de 50.

Depois de um tempão mergulhadas naquela livraria mais que perfeita, tomamos um cafezinho por lá mesmo e depois caminhamos até a Japan House, que estava fechada. A rua cheia de gente colorida e enfeitada. O sol se pondo enquanto a gente andava. Os pés doendo. Os carros voando pela avenida. O metrô passando por baixo do que parecia um bueiro e eu assustada falando 'meu deus, é o metrô' e a Dessa acostumadíssima àquilo "sim, miga, é o metrô".

De noite, ainda teve festinha, mas em um lugar fechado, a Tokyo. É uma festa que fica em um prédio de 9 andares na República, com karaokê, pista de dança, terraço. Dançamos mais e voltamos para casa. Foi o último rolê do carnaval.

No dia seguinte, voltei pra Santos e passei a tarde lendo e fazendo as unhas, meu vô no quarto ouvindo rádio. No instagram, a galera não parou. A cada story, meu pé latejava, como se me avisasse: a senhora nem pense!

Eu não estava mais pensando. Não sou a galera do instagram: eu sou a Manie, que não faz um super auê pelo carnaval, que não gosta de se sentir obrigada a participar de algo que não tá afim e que ama os passeios mais sem coerência que dá com a Dessa. Sem contar que no sábado antes de ir pra São Paulo, enquanto a galera sarrava nos glitter tudo, passei o dia todinho com a minha mãe, tomando café, conversando e comendo sushi. Não podia ter sido melhor.

Por que eu compartilho isso aqui? Porque é necessário. Talvez seja urgente, para algumas pessoas. Não queria terminar o texto com um tom de autoajuda, mas se for assim, que seja: não se baseia nas redes sociais para definir o que você tem vontade de fazer não. Não é só carnaval. Ontem mesmo já senti um siricutico no peito vendo mulheres maravilhosas que sigo indo às manifestações do 8 de março, porque tudo o que eu mais queria era ir do estágio direto pra casa comer guacamole e ver Parks & Recreation com meu namorado. Passei pela concentração da marcha porque era caminho pro terminal de ônibus. Fiquei felizona em ver tanta mina junta entoando músicas que eu sabia de cor, mas não quis parar ali. Queria ir pra casinha. Fiquei um pouco ansiosa vendo stories das pessoas que participaram? Fiquei. Mas assim que sinto uma pontada no peito, logo me afasto do celular e vou fazer outra coisa. Foi o que eu fiz.

Tá tudo bem, eu repito várias vezes seguidas. Respiro fundo.

E isso aqui não é de jeito nenhum uma apologia a não ir em protestos, pelo amor da deusa! Participei de vários que me enxeram de força pra continuar a caminhada nesse planeta bizarro, inclusive à trabalho, fotografando. Mas hoje reconheço que fui a várias manifestações pelo simples fato de participar e ficar tranquila com a minha consciência, mesmo sem ter tido de fato vontade de ir. Mesmo tendo crise de ansiedade quando vinha polícia no meio da galera. Vivia arranjando desculpas convincentes e maduras para protestos que eu simplesmente não fui porque não quis. Sempre me pareceu feio não querer ir.

As eleições do ano passado são outro exemplo de como minha saúde ficou cagadíssima por conta da comparação que fiz entre mim e a galera da internet. Todo mundo parecia empolgadíssimo berrando na minha cara "vai pra rua converter voto!" e eu me achava péssima por não conseguir chegar em alguém e fazer isso porque eu simplesmente não chego nas pessoas com essa facilidade toda. Eu fico nervosa, tenho taquicardia. Foi a Carol Miranda quem me acalmou, mesmo sem saber. Lembro que ela postou nos stories algo do tipo 'não se sinta mal por não conseguir converter voto' e eu me senti abraçada. Obrigada, Carol, se você estiver lendo isso agora.

E, bem, talvez esse seja o fim do texto. Cara, eu acho tão importante a gente escutar mais o que tem dentro da gente. Parar de se comparar, de buscar aceitação de gente que nem conhece a gente. Se eu tivesse ido em blocos todos os dias do carnaval, virado quinhentos votos pro Haddad nas ruas ou postado foto da minha participação nos protestos do 8M ontem no instagram, seria só uma falsa sensação de pertencimento. Afinal, no fundo eu não teria participado daquilo por vontade própria - e, em alguns casos, teria saído cagada da cabeça. E se tem uma coisa que aprendi com tudo isso é que não vendo minha saúde mental para fazer parte.


Tenho falado muito sobre internet aqui no blog, né? É que nos últimos meses minha relação com as redes sociais mudou bastante. Depois que notei como o tempo online - e a forma como eu usava alguns aplicativos - me impedia de ter um dia gostosinho, tranquilo e com menos ansiedade, precisei rever esse hábito. O mais legal foi perceber que várias pessoas que acompanho nas redes também estão refletindo sobre isso, o que acho essencial pra gente transformar isso aqui em um ambiente menos competitivo e pesado, menos socado de informações sem propósito.

Conteúdos legais sobre o uso mais saudável das redes sociais: 
(não precisa clicar em tudo de uma vez! vamos com calma <3)

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