terça-feira, 18 de junho de 2019

Transformar expectativas em inspiração

A internet me assusta. Tem vezes que tô na fila do pão contando as moedas e me vem, do nada, o maior insight* da vida sobre determinada situação. Não comento com ninguém e deixo essa descoberta guardadinha, até que poucos dias depois surge alguém na internet e paft: comenta que teve a mesma reflexão. 
* insight, segundo o google: clareza súbita na mente, no intelecto de um indivíduo; iluminação, estalo, luz.
Se isso faz com que eu me sinta definitivamente numa Matrix, a gente deixa pra outro texto. O que importa é: acabei de ver esse vídeo da Jout Jout e fiquei real assustada com a semelhança das nossas reflexões.

Sei, e não é de hoje, que não costuma ser legal criar expectativas e se deixar levar por elas. Durante muito tempo, então, tratei de rompê-las da minha mente sempre que percebia sua presença. Porém, não importava o quanto eu me esforçasse, certas coisas continuavam sendo idealizadas, nem que fosse por cinco minutos entre uma música no Spotify e um puxar a cordinha pra descer no ponto do ônibus. 

Foi quando resolvi me deixar levar por essas idealizações em alguns momentos do dia. Comecei de leve, como uma criança com medo das ondas entrando no mar. Quando dei por mim, tava mergulhando bem plena em tudo o que vivia em minha imaginação. 

Eu sou do tipo de pessoa que, como a Júlia disse no vídeo, inventa histórias a partir de casos cotidianos, reais. Vejo alguém e faço dela personagem do elenco da minha vida. Nessa peça, eu sou narrador onisciente, aquele que sabe exatamente o que se passa na mente de todo mundo.

A diferença entre anos atrás e agora é que compreendi o lugar dessas expectativas e, definitivamente, ele não é na vida real. Às vezes, boto o fone de ouvido voltando do trabalho e ouço Bohemian Rhapsody, por exemplo.  Fecho os olhos e me vejo num vestido bem bonito, tocando piano em um enorme palco para milhares de pessoas. Em alguns desses devaneios eu até canto - e nem sei cantar. Quando a música acaba, sinto que fui abraçada por uma sensação boa. Não sinto mais vontade de chegar em casa e procurar aulas de piano ou de canto, para treinar e fazer daquilo realidade. Apenas permito que aquela viagem interior provoque sensações em mim e valorizo essa experiência, ainda que não seja real.

Tem vezes que, no meio da leitura de um texto pra faculdade, os devaneios surgem sem pedir licença, interrompendo frases, dando pontapés em parágrafos. Sem perceber, me vejo conversando com pessoas que não existem - seja porque não correspondem às que são na realidade, seja porque simplesmente as criei. Imagino a gente tomando café em um ambiente de luz amarelada com cheiro de cravo e canela, ou dançando em uma festa do outro lado do mundo. Viajo para um apartamento que não tenho em São Paulo e crio cenas milimetricamente pensadas que mostram como eu fiquei super amiga do motoboy que veio me entregar uma pizza 4 queijos.

Isso serve para tudo: pessoas que jamais serão o que eu criei delas, lugares que poderiam ser diferentes, situações que vivi e que gostaria que tivessem ocorrido de outra forma. Pego coisas do passado e recrio, ao mesmo tempo em que viajo a um futuro que jamais vai existir. E, sempre que volto ao presente e sinto a realidade palpável ao meu redor, fico bem. Aprecio o que faz parte da minha vida no atual momento e sinto uma imensa gratidão por tudo isso. Não é como se eu tivesse me iludido ao me deixar levar pelas idealizações, porque agora sei que realidade e ficção podem conviver muito bem juntas. 

No final do vídeo, o Caio sugere que a Júlia pegue todas essas expectativas e as escreva, que extravase e bote todas para fora. Foi a ideia mais genial que ele poderia ter me dado. Após uma viagem de ônibus, tenho um roteiro pronto. Às vezes, um conto; outras, um romance. Um dia ainda faço das minhas idealizações reais, não na minha vida, mas sim na literatura. Deixa passar só TCC.

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Tema: Maira Gall | Modificado por Manie