sábado, 3 de agosto de 2019

Quem te inspira é parecido contigo?

Conversando com uma amiga no bar, dia desses, me dei conta do quanto me comparo com pessoas que não têm nada a ver comigo. Entre um "sim, exatamente isso!" e um "nossa, nunca pensei nessa possibilidade", falamos sobre como é importante selecionar quem a gente escolhe para se inspirar.

arte por: @partes.art

Parece bobeira, mas faz todo sentido. A sensação que dá quando me mantenho focada em existências tão distantes da minha é que me perco de mim mesma. Só pra vocês terem uma noção, ó: dos produtores e produtoras de conteúdo que acompanho no instagram, pouquíssimas são negras e/ou pobres. E não para só em classe e raça - o que por si já diz muita coisa -, vai além: a maior parte dessas pessoas são pelo menos cinco anos mais velhas do que eu, algumas com filhos, quase todas residentes de São Paulo - isso quando não moram em outro país. Adoro acompanhá-las, porque se não gostasse nem as seguiria, mas pode ser um pouco perigoso focar somente nessas pessoas. 

Gosto de seguir essas pessoas porque pelo menos em algo nos assemelhamos: seja por gostar de livros, por repensar o consumo de lixo, por ter opiniões políticas semelhantes, por se interessar em conhecer lugares novos, enfim, fator é o que não falta. Mas por que será que me sinto tão mais em casa quando acompanho influenciadores que se parecem comigo? Acho que é porque a inspiração que estes me causam costuma ser de igual para igual.

Por mais que eu saiba que a maior parte dos (as) que sigo seja consciente e se importe com questões que me tocam, isso não é suficiente. Uma mulher branca de classe média pode simplesmente fechar o livro da Angela Davis e voltar à sua vida tranquilamente, porque foi essa paz que os processos históricos possibilitaram a ela. Eu e as minhas semelhantes não podemos fechar o livro porque ele somos nós.

Entretanto, não é saudável, muito menos coerente, exigir dessas pessoas que nos contemplem a todo o momento. Considerar outras existências é um exercício super válido para qualquer produtor (a) de conteúdo, mas não faz sentido esperar que outras pessoas falem por nós. Fica até forçado. Tanto que houve épocas em que vivi uma contradição chamada "você não me considerou nessa fala sua" e "não adianta você me considerar porque você nunca vai ser eu". Complicado isso, né? 

Quando tive esse estalo, meu coração ficou mais levinho. É cansativo exigir que pessoas tão diferentes de mim criem conteúdos que me agradem. O mais gostoso é me aproximar de quem estava ali o tempo todo mas que o algorítimo não deixava chegar até meu feed. Algo que tem me ajudado é silenciar alguns perfis por tempo indeterminado, para descobrir conteúdos que antes não chegavam até mim. 

É libertador passar a fazer comparações possíveis e, consequentemente, se inspirar de um jeito mais genuíno, mais sincero. Sabe, buscar conteúdos que sejam feitos a partir de olhares parecidos com o seu, não para se prender no próprio mundo, mas para se sentir parte de algo maior sem se esforçar tanto para isso. Flui naturalmente e a gente passa a se sentir representado por quem realmente nos representa. 

Alguns perfis no instagram que gosto de acompanhar
(vou atualizando aos poucos):
@umvelhomundo
@jota3love
@veganoperiferico
@aantibiblioteca
@cheirando_livros
@malusilvablog
@grazi_g

Nenhum comentário

Postar um comentário

© Meus Cafés
template feito por Maira Gall
modificado por Manie