quarta-feira, 4 de setembro de 2019

Não precisa concluir tarefas para se sentir em paz

Em algum momento da vida, aprendi que eu só poderia me sentir tranquila por meio de pequenas realizações do dia, tais como: 

contemplar a caixa de entrada do gmail vazia; 
passar o rodinho na pia depois de lavar a louça;
grapear o comprovante de pagamento no boleto e guardar na pasta de contas pagas;
visualizar todas as mensagens do whatsapp (bônus: respondê-las!);
ter nítidas na mente as tarefas dos próximos cinco dias;
dormir sabendo que a marmita do dia seguinte tá pronta na geladeira, dentro do pote. 

Até que um dia me dei conta de que a vida é uma grande macarronada - com um monte de ervilha que eu não pedi - e que o jeito mesmo é buscar paz durante a realização das tarefas, não apenas em sua conclusão. Nessas, acabei abraçando tudo o que veio pela frente, da quebra de máquinas de lavar a filas de banco que duram mais que o previsto. 

Quem me ensinou isso foi a Lili Prata, que há anos me mostra por meio de seus vídeos que a vida adulta pode ser bonita. Agora ela também tem um podcast (o Proibido Fritar Pastel), que grava junto a um amigo, o Gael - outro anjo. Ouço toda semana porque saber como eles enxergam o mundo me faz bem demais. 

Em um dos episódios, não lembro ao certo qual foi, aprendi como é libertador aproveitar momentos como lavar a louça. Sempre via essas tarefas como pontos fora da curva, sabe? Ou pior, inimigos a serem aniquilados, visando a harmonia da minha existência diária. Só que a energia que eu gastava me arrastando até a pia, como se limpar panelas e pratos fosse uma penitência, costumava ser maior que o ato de lavar. Acabava que a louça era limpa e a sensação de tempo perdido aumentava, até porque o que devia ser feito sempre estava no futuro, nunca no agora (assunto para outro texto). 

Continua sendo gostosa a sensação de passar o rodinho na pia limpa, mas deixou de ser meu foco. Se lavei metade dos copos e deixei o resto para depois, tudo bem também. Inclusive, parei de querer ver o apartamento sempre limpo e arrumado, porque 1) minha vida não é o pinterest e 2) ter roupa na cadeira da escrivaninha aguardando para ser dobrada - por dias - significa que mora gente nessa casa, e eu gosto disso. 

A pasta de newsletters do meu gmail está com seis não lidas; comecei o mês passado lendo Jane Eyre para participar do Leia Mulheres do último sábado, mas no dia acordei de ressaca e exausta (não fui, mas sigo lendo o livro, o qual não tenho a mínima pressa de terminar); faz três dias as únicas notícias de política que leio são as relacionadas ao desastre que o atual governo vem causando nas universidades federais (porque aprendi a selecionar as desgraças que a agenda jornalística nos empurra goela abaixo, sem entretanto me alienar) & tantas outras coisas poderiam ser mencionadas como forma de mostrar como pensar por essa perspectiva vem me ajudando a ter paz.


Essa e outras descobertas são recentes na minha vida, a maioria fruto dos episódios ouvidos do Proibido Fritar Pastel. Tenho a impressão de que todas elas estão conectadas, o que torna difícil separá-las e transformá-las em postagens únicas. Tratei de salvar algumas no bloco de notas do celular, mas leio hoje e não encontro o gás para dar vida a elas, porque tem coisa que se perde ou resolve descansar. No fundo, essa é a macarronada (com ervilhas que aprendi a comer sem reclamar) sobre a qual comecei falando neste texto: há ideias se transformam em textos ou vídeos, mas tem aquelas que não querem se transformar em nada, e tudo bem. Durante um bom pedaço da vida, achei que tivesse que transformar em palavras tudo o que eu aprendo, porque esse monte de coisa não cabe em mim, preciso compartilhar. Só que algumas coisas não saem como gostaríamos, e muitas vezes nem saem. Ó aí, mais um ensinamento, desses que vêm sem querer: tem coisa que basta viver.

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