sábado, 21 de setembro de 2019

Sobre a batalha pelos significados e a importância de estar entre os nossos

É difícil participar dessa batalha pelo significado das coisas banhada pelo intragável culto à ignorância. Tem dia que fico meio perdida, me perguntando se o outro lado de repente tá certo e eu que tô batendo pé numa ideia que enfiei na cabeça. Então, a vida me oferece momentos que me chacoalham pelos ombros, como se dissessem "queridinha, você pare já de pensar nisso". 

Tentar dialogar com quem tão pouco sabe sobre nossas ideias costuma ser um processo cansativo. No meio de um 'ok, bora explicar pro tio que racismo existe no Brasil', a gente se vê voltando a assuntos tão básicos, há tanto mastigados e digeridos, que se perde em pequenos dados, em minúsculas provas. Nessas, estaciona num be-a-bá que impede que a gente avance. Veja, não é sobre provar certezas e se fechar pro diálogo, mas sim sobre saber que não dá pra buscar microexplicações para coisas historicamente colossais.

Ai de mim criar binarismos de "nós" e "eles" - recorro a essas divisões apenas para facilitar a narrativa -, mas o outro lado sabe muito bem o que tá fazendo quando coloca nas nossas costas a responsabilidade de lidar com o caos que eles mesmos criaram. A gente sabe que eles só tão lá porque se construíram na base de mentiras e de estudos de comunicação milimetricamente pensados - e muito bem pagos. Lembrete: o outro lado não é seu tio, mas o que o faz acreditar que o mundo é tão simples, que as coisas estão dadas.

Todo esse rolê faz a gente se sentir pequeno, quando na real a gente é muito mais forte que eles. Basta ver o tamanho dessa reação, que há tempos cresce dentro e fora do país. É vital perceber que fazer a gente voltar vinte casas nesse jogo é uma estratégia deles de dominação. E um dos jeitos de a gente lembrar que não tamo louco não é estando entre os nossos, porque só isso nos devolve a sanidade e mostra o quão mais coerente é o nosso caminho.

Essa semana, participei de uma aula aberta de escrita criativa na universidade (que, para quem não sabe, está em greve, frente aos c-o-r-t-e-s que o Ministério da Educação anunciou no início do ano). Essa aula foi dada pela doutora em literatura Clarice Fortunato Araújo, mulher negra - ex moradora de rua e ex empregada doméstica -  que tá pra publicar um livro pela editora Pallas (a mesma que publicou Conceição Evaristo). 

Na conversa, Clarice compartilhou com a gente pedaços de sua trajetória, desde a infância vivendo nas ruas com a mãe, até o momento que entrou na universidade e se sentiu sozinha, sem pares para conversar. Também falou sobre como resgatou sua ancestralidade na época em que fez doutorado fora do país. 

Foi uma manhã bastante emocionante e fortalecedora, não só pela experiência compartilhada e pelos relatos feitos pelo grupo, mas por ver uma mulher como ela, que para mim é referência, ocupando um espaço de legitimação de saber que há anos nos foi (e é) negado. 

Não sei se você sabe, mas nós, brasileiros, fundamos nossa epistemologia com base em um processo colonizador, racista e patriarcal. A gente cresce achando que cabelo cacheado e crespo é cabelo ruim, que mulher não pode ficar bêbada, que homem não pode chorar, que o primo gay é o único da família que tem que dar satisfações públicas sobre sua orientação sexual, e sei lá mais o quê. Nada disso, entretanto, nasceu do nada, muito menos foi herdado geneticamente. Grande parte dessas noções de mundo foram construídas por pessoas que antes estiveram nas universidades produzindo conhecimento: a maioria delas homens, brancos e heterossexuais. Na ausência de grupos oprimidos que pudessem falar por si, tais homens resolveram eles mesmos falar pelos outros, criando vez ou outra coisas como aquela baboseira de harmonia das três raças, que fundou o que a gente entende hoje por democracia racial (aquela que ignora o estupro que mulheres negras e indígenas sofreram por séculos).

Por isso, ver uma mulher como Clarice em uma universidade federal é um abraço na alma, um empurrão para continuar caminhando. 

Instantes de vida como o que vivi naquela aula me deixam tranquila porque me lembram de quem sou. O tal do culto à ignorância, por outro lado, me afasta de mim mesma. Logo jovem, percebi a importância de olhar para dentro e ver que a resposta para muitas das minhas angústias tava ali, bem no fundo. Ainda na pré adolescência, eu saquei que não me acrescentava nada me reunir a pessoas e resumir nossos assuntos em boletos bancários, no carro que o tio trocou, na casa que o vizinho tá reformando, em discutir se a namorada do primo é bonita ou feia, quantos kg a amiga (que nunca tá na conversa) ganhou - como se isso fosse um problema -, o emprego que o sobrinho perdeu. Não costumo me sentir à vontade nessas ocasiões. Na verdade, eu acho um porre.

Precisei de alguns anos para perceber que o problema dessas conversas não era o simples fato de serem fofocas, mas a ausência de autorreflexão. No medo de precisarem lidar com os próprios monstros, as pessoas que na infância eu ouvia conversar se debruçavam sobre vidas que não a delas. Raramente ouvi adultos ao meu redor falando de sentimentos ou dos próprios sonhos.

E eu sei porquê.

Porque olhar para si dói. Ficar em silêncio, refletindo sobre a própria existência, repensando atitudes e pensamentos é um processo difícil - mas necessário na medida em que nos liberta. O mais legal é quando a gente se sente à vontade para fazer isso em grupo: conversar sobre si mesmo, sobre as dores e as alegrias, sobre coisas que a gente fez e que se arrepende. Tem amigo que eu encontro e nossas conversas começam no "puxa, como tá frio hoje" e terminam em devaneios tão, mais tão profundos, que às vezes a gente tem que dar uma segurada para poder se fazer entender pelo outro. É sempre incrível.

Olhar pra si, portanto, é antes de mais nada um ato de coragem. Nossa vulnerabilidade é posta contra a gente diariamente, tida como fraqueza, quando na verdade ela é a nossa maior força. 

Quando participo de palestras como a da Clarice, ouvindo pessoas compartilharem suas experiências em prol da construção de uma força coletiva, eu me sinto em paz. Em meio às vozes que se cruzam, vejo lágrimas derramadas, sorrisos e abraços dados por pessoas que tavam ali do lado e que eu nem conhecia. Dentro de mim, uma voz ecoa, me envolve como um abraço de vó e diz que aqui a gente não se esconde; aqui a gente vai atrás dos nossos sonhos; aqui tem afago, tem afeto. Tem liberdade. 

Mas, olha só, não somos um grupo fechado. O melhor de tudo é que aqui tem tanto, mas tanto amor, que a não cabe só na gente. Aos que não se sentem parte, fica o aviso: a porta tá aberta.

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