terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

criar narrativas sobre coisas que não existem

eis que um dia, lendo em uma cafeteria, me dei conta da minha incrível capacidade de criar narrativas e me deixar conduzir por elas. nem sei mais quantas vezes eu me afundei em angústias por enxergar as coisas muito além do que realmente são. sabe quando, num dia chuvoso, alguém te olha meio torto e você começa a criar um monte de motivos para aquele olhar? e então você se perde pensando que tal olhar significa “eu odeio você” quando, na verdade, a pessoa te olhou daquele jeito porque no exato momento em que seus olhos se cruzaram ela lembrou que havia deixado as janelas de casa abertas.


o livro que eu tava lendo no dia em que me dei conta disso era jane eyre, da charlotte brontë, um romance inglês publicado no século XIX (uma das melhores leituras que fiz ano passado). não é sobre ele que vou falar, mas preciso compartilhar com vocês o trecho que me despertou essa reflexão.


rápido contexto: jane eyre, uma criança que sofreu muito nas mãos da tia, vai morar em um orfanato, ainda bastante marcada pelos momentos ruins que viveu na antiga casa - e se culpando pela maioria deles. eis que, num belo dia, o dono do orfanato - o único que sabe do seu passado - vai até seu novo lar e puxa assunto com a professora, aos cochichos. jane eyre, apavorada, tem certeza de que o assunto da conversa é ela.


“Desde o início, temia que essa promessa se cumprisse, antevendo o dia em que O Homem viria, aquele cuja informação a respeito do meu passado e cujas revelações iriam me estigmatizar para sempre como uma menina má. Agora ali estava ele. De pé, ao lado da Srta. Temple. Falava baixo, ao ouvido dela. E eu não tinha dúvidas de que eram comentários sobre a minha vilania. Observei o olhar da Srta. Temple com enorme ansiedade, esperando que a qualquer instante seus olhos escuros se virassem em minha direção com uma expressão de desprezo e repugnância. E fiquei à escuta. Como estava sentada a parte da frente da sala, conseguia ouvir quase tudo o que ele dizia. E suas palavras logo me livraram daquela apreensão.

- Creio, Srta. Temple, que a quantidade de linha que comprei em Lowton será suficiente. Achei a qualidade adequada para as camisas de algodão e procurei agulhas do mesmo tamanho (...)”


lembro que eu ri um tanto alto quando li esse trecho, porque a identificação veio na hora. muitas vezes senti o coração acelerar de um jeito doloroso por pensar que eu era o motivo das risadas dos outros, da cara fechada dos outros, da tristeza dos outros, dos olhares dos outros. e quando a gente começa a criar essas narrativas, é muito fácil se prender a elas e ir longe, bem longe.


isso é perigoso na medida em que eu deixo de confiar em alguém, por exemplo, simplesmente porque botei na cabeça que aquela pessoa, que nunca mentiu pra mim, não tá me dizendo a verdade. me sinto um quase-deus tentando acessar a mente da pessoa, como se fosse capaz disso. me perco nos meus devaneios. me perco no meio de um monte de narrativas que eu mesma criei.


criar essas histórias nos tira os pés do chão. a gente molda pessoas como se fossem personagens de uma trama das quais, na maioria das vezes, somos vítimas. ele tá falando que me ama mas na verdade tá pensando em outra pessoa. ela diz que gostou do meu vestido mas na verdade achou horrível e tá sem coragem de me dizer a real. ele não me chama pra tomar café há três semanas porque tá com medo de eu me apaixonar.


cada narrativa dessas, da mais simples à mais complexa, me aprisiona. toda vez que me vejo circulando nessa criação artificial de sentidos, lembro de um texto do pierre bourdieu que li uma vez pra faculdade:


“O relato autobiográfico se baseia sempre, ou pelo menos em parte, na preocupação de dar sentido, de tornar razoável, de extrair uma lógica ao mesmo tempo retrospectiva e prospectiva, uma consistência e uma constância, estabelecendo relações inteligíveis, como a do efeito à causa eficiente ou final, entre os estados sucessivos, assim constituídos em etapas de um desenvolvimento necessário.”


é. criar narrativas talvez seja algo nosso, do ser humano, sabe? o problema, como eu disse, é se deixar levar por elas. tomar decisões com base nelas. deixar de tomar decisões com base nelas. viver por elas.


nem sempre é coisa da nossa cabeça, a gente sabe. e, bem, a única forma de saber a verdade é perguntar - algo que, sabemos, exige bastante coragem. mas de nada vale perguntar sem confiar. então, o que eu botei na cabeça depois de ler aquele trecho de jane eyre era que eu precisava dar às pessoas a possibilidade de darem seus pontos de vista e, consequentemente, terem de volta sua autonomia diante de seus próprios sentimentos.


e, muitas vezes, derrubarem pela raiz minha árvore de mentiras.


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