domingo, 16 de maio de 2021

todo dia, ao acordar, eu rego um jardim sem flores

pareço fora de mim. todo dia eu acordo e faço um esforço danado pra me manter no presente. como fincar os pés no hoje, porém, se o hoje é um tempo em que não quero estar? da janela eu olho a avenida e a garganta aperta. queria viver o lá fora, mas o lá fora só existe no futuro. e o futuro nem existe.

faz meses que pareço viver em uma pequena sala de espera, como se a vida estivesse suspensa. pareço anestesiada. nesse limbo, qualquer decisão parece perigosa. então, presenteio um futuro incerto com decisões que não me sinto habilitada a tomar agora. até mesmo decidir acreditar nas coisas que sinto passou a ser motivo de desconfiança. faz tanto tempo que tô em casa que nem sei se posso confiar em mim. sentir qualquer coisa nesse momento beira entre o falso e o absurdo. duvido do riso, da tristeza, da dor. eu duvido até do amor. 

todos os dias eu fantasio sobre o que eu gostaria de viver quando tudo isso passar, torcendo para que o calor da vida sobreviva em mim, mas a verdade é que tenho medo de não saber mais viver. me apavora nadar, nadar, nadar, insistentemente, tomando doses homeopáticas de paciência, dia após dia, cheia de coisas bonitas aqui dentro e, quando finalmente cruzar a travessia, não me reconhecer mais. fico me perguntando por quantos meses os sentimentos sobrevivem dentro da gente. e temo que eles não aguentem nem vírus, nem presidente genocida, nem mesmo o tempo. 

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