quarta-feira, 13 de outubro de 2021

uma série bonita de apenas três episódios

gosto de séries que me causam coisas difíceis de transformar em palavra. é como se algo atravessasse a tela e chegasse fundo na mente, me fazendo lembrar de coisas, sentir coisas, projetar coisas. nem sempre essa sensação é causada por uma frase bem construída ou pelo destino de uma personagem. às vezes, o que causa essa identificação são hesitações, detalhes, não-ditos, olhares. foi o que aconteceu quando assisti the pursuit of love (como não sou boa em escrever sinopses, deixo aqui uma curtinha pra vocês saberem mais ou menos do que se trata).


de longe, o que mais gostei na série foi a linda, interpretada pela lily james. olho para ela e chego a apreender o seu desejo por amor, por liberdade e por viver ao máximo sua existência como se fosse eu a pessoa que sente. personagens com as quais costumo me identificar têm um pouco do que sou e do que eu gostaria de ser e talvez seja por isso que gostei tanto dela. linda representa o que lutei para ser e, com alívio, posso afirmar que sou. ela é minha personagem favorita da série — junto ao maravilhoso lord merlin. crush imenso tanto em ambos, pelo amor de deus. coloco os dois em minha frente e chego ao mais profundo significado do tanto faz




resolvi, porém, focar em outra personagem: a fanny.

vejo nela, a narradora e melhor amiga de linda, quem eu era em um passado muito próximo — e às vezes no presente, quando não estou tão consciente de mim —, o que me deixou bastante perturbada. 

dentro de fanny há uma vontade imensa de viver outra vida, mas parece que ela não sabe que isso é possível. percebo essa característica porque vivi isso inúmeras vezes e a cada fase da vida me percebo novamente vivendo. é difícil demais sair de uma situação à qual você não se vê presa, apenas sente. quanto mais eu cresço, mais eu entendo a urgência de tirar do fundo de quem sou minhas reais vontades diante da vida. parece que tá tudo muito cheio de poeira, sabe? daí vou lá, varro tudo até enxergar o que realmente quero, o que realmente sou. e quando enxergo, me pergunto como era possível viver sem enxergar. depois de uma angústia estranha, bebo um gole d'água e concluo que trabalho com as ferramentas que estão ao meu alcance. nem sempre a vassoura e a pá estão visíveis.

assim como fanny, tendo a rejeitar o que quero antes de me dar conta que preciso daquilo. olho torto, dobro a sobrancelha, reviro os olhos. daí percebo que, no fundo, rejeito o que desejo. o mais bizarro é que nem sempre há empecilhos concretos, coisas que objetivamente me impedem de viver o desejado. se assim fosse, seria mais fácil resolver. porém, dentro de mim habitam um monte de subjetividades complexas, vontades que nem sabem que são vontades. o tempo é que me faz percebê-las e, mais que isso, conquistá-las. vivê-las.

a forma de linda viver a vida nitidamente encanta fanny, ao mesmo tempo em que a perturba. é como se linda a fizesse lembrar que há algo além do que se mostra como possível para uma mulher como elas nos anos trinta. não sinto que fanny desconhece essa vontade, nem mesmo que ela seja incapaz de estabelecer uma conexão nítida entre as conquistas da melhor amiga e seus próprios desejos. todavia, são muitas subjetividades complexas, como eu disse ali em cima. é difícil simplesmente se dar conta, falar "ata" e resolver, simples como apertar um botão.

tem muito da mãe de fanny em linda, uma mãe que não quis vê-la crescer porque preferiu viver os próprios sonhos, tal como a própria linda fez depois ao ter uma filha. imagino que essa associação seja bastante óbvia na construção das personagens, mas há outras camadas além dessa a serem sentidas, descobertas, percebidas. talvez, seja algo sobre o qual eu não consiga escrever, porque ainda tá muito nebuloso aqui dentro. só sei que olho para a fanny e me dá uma vontade louca de chacoalhá-la e berrar que ela merece viver a vida que, no fundo, deseja; que não é só por parecer estar "no fundo" que não pode ganhar a superfície; que ela pode, que ela deve; que não há motivos para esperar algo grandioso acontecer e direcionar seus passos; que ela pode, enfim, ser livre.

fico feliz por hoje conseguir, depois de muita terapia, ser mais linda que fanny. gosto de gostar, amo amar e é para isso que acordo todo santo dia: para amar um pouco do que há de bonito no mundo, para amar o acolhimento que eu me dou quando a parte ruim que há nesse mesmo mundo me assombra, para amar minhas plantas quando as rego, para amar meus livros quando os grifo, para amar as pessoas que me cercam e para amar, sobretudo, a mim mesma.


figurino, edição, trilha sonora e atuação: impecáveis. um pouquinho disso tá nessa cena, que eu amo demais (não é um spoiler):

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