quinta-feira, 24 de março de 2022

sentimental.mp3

paraliso diante das doze abas abertas no navegador, a caneca com café frio pela metade ao meu lado. estalo o pescoço, respiro fundo e abro sinonimos.com.br para não repetir o mesmo verbo no parágrafo. discorrer. 

Dissertar sobre algum assunto:

dissertar — já usei

falar — muito sem graça

pronunciar-se — chique demais

expor  hm, talvez.

meu raciocínio é interrompido pela voz da vizinha da frente, um susto que me faz derrubar o restinho de café sobre a escrivaninha. junto à cantoria, acordes graves em volume alto vindo de alguma caixa de som. QUEM É MAIS SENTIMENTAL QUE EU?????, ela berra. 

a voz é rouca, desafinada, potente. quase um grito de desespero. me levanto rapidamente e pego o pano de prato pendurado no vidro do fogão. limpo o estrago pensando que, bom, pelo menos não caiu em cima do computador a três dias do prazo pra enviar o artigo. no apartamento do lado, a vizinha continua cantando. 

não sei quem é ela. a gente só se esbarrou uma vez, quando fui descer o lixo, no dia em que me mudei para o prédio. o elevador abriu no meu andar e ela, de mãos dadas com um cara bonito, me deu bom dia. sorri, preocupado em bancar o vizinho novo simpático. no térreo, lembrei que estávamos os três de máscara. droga, devia ter respondido em vez de mostrar dentes que ninguém viu. mal educado, ela deve ter pensado.

os gritos continuam enquanto levo o pano até o tanque. jogo no balde vazio. FEZ DELE RAZÃO PRA SE PERDEEEER. reviro os olhos e volto ao trabalho. ok, expor é uma boa alternativa. digito três frases que não fazem sentido. apago, reescrevo. 

EU SÓ ACEITO A CONDIÇÃO DE TER VOCÊ SÓ PRA MIMMMM.

meus dedos não se movem. leio, releio. e de repente não leio mais nada. as letras de embaralham. 

— inferno de garota — sussurro, olhando pro computador. EU SEEEI, NÃO É ASSIM, MAS DEIXA EU FINGIR E RIRRRRRRRRR — vai se fuder.

me afasto. o cheiro do café misturado ao da madeira da mesa me incomoda. como naquele filme ratatouille, sou teletransportado para a rua aurora, numa cafeteria a céu aberto, três semanas antes. eram três e quinze da tarde, o marcelo de frente pra mim, do outro lado da mesa. ele falava com os olhos brilhando porquê amor nos tempos do cólera é melhor que cem anos de solidão. se o livro era ou não injustiçado, eu sei lá. só sei que a convicção dele me cativou. suas mãos dobravam e desdobravam um guardanapo limpo enquanto ele explicava como se perdeu tentando entender quem era aureliano filho, quem era aureliano pai. 

— a leitura simplesmente não andava — reclamou. — e aquele negócio de borboleta amarela, menina voando no lençol até o céu, surto de insônia coletivo. bernardo — aqui ele me olhou nos olhos e eu congelei, minha cara ridícula de boba —, simplesmente não fazia sentido. 

menos de uma depois ele aceitou vir conhecer meus livros, mas foi minha cama que mais lhe interessou. transamos a tarde inteira e acredito só termos parado porque deu fome. abri a geladeira enrolado no lençol e tentei imaginar o que daria pra fazer com três batatas e um tomate, mas não cheguei a nenhuma conclusão porque ele me abraçou por trás, esqueci da comida e transamos mais uma vez, no chão.

QUEM É MAIS SENTIMENTAL QUE EEEEEEEEEEEU???

olho a tela do computador, o cursor aguardando que eu diga que caminhos deve seguir. desvio o campo de visão para o celular, do outro lado da sala. fecho os olhos tentando ignorar aquele objeto infame. bato os pés no chão controlando a ansiedade. volto a olhar o aparelho e caminho até ele. desbloqueio a tela e diminuo a luz, como se isso fosse impedir qualquer pessoa,  mesmo eu estando sozinho, de me ver fazendo o mesmo e vergonhoso gesto dos últimos dias. rolo as conversas do whatsapp por segundos que parecem horas. marcelo. dois tracinhos azuis debaixo da minha mensagem. "você vem mesmo hoje?" 

quinze dias atrás.

EU SEI NÃO É ASSIM, MAS DEIXA EU FINGIR E RIIIIIIR.

de um jeito abrupto, aperto o botão lateral do aparelho. a tela escurece e algo em mim também. olho para a parede branca e busco vestígios de memória, pedacinhos de lembrança que possam me dar alguma resposta. nada me serve como justificativa. uma palavra mal dita, um olhar torto por engano, uma opinião equivocada sobre seu livro favorito. será que foi isso? balanço a cabeça, não faz sentido algo tão pequeno ser decisivo. talvez tenha sido a forma como eu o abracei na hora de me despedir, sei lá. me empolguei. abracei forte e essa força ele interpretou como emoção demasiada. fico triste, a garganta dá um nó. em seguida, fico puto. vai se fuder também, marcelo. vai se fuder vizinha. vai se fuder todo mundo. não pode abraçar, não pode mandar meme, não pode nem marcar em post de evento-literário-na-esquina-da-sua-casa-olha-que-legal-vamos-juntos? 

vou até a cozinha, abro a torneira do filtro de barro, de onde não sai água. inclino-o com cuidado e consigo encher metade do copo. bebo num gole só. me apoio na pia, encaro o balcão. 

MOTIVO EU NUNCA DEEEEEEEEEI. 

desvio o olhar para o copo d'água vazio, como se fugisse. continuo buscando motivos, mas na ausência de respostas me dou conta de algo que me surge sutilmente. percebo que assumir ser proposital o afastamento de marcelo é assumir, também, uma importância que não tenho para ele.

pauso. me arrependo de ter buscado razões. tava melhor antes de pensar.

de costas para a parede de azulejos frios, sinto o peso da minha insignificância. pego-a nas mãos. abraço-a.  

meu corpo, cansado de pensar, relaxa músculo a músculo. a voz da vizinha se aproxima. deve estar perto da janela. caminho devagar até a varanda da área de serviço e vejo a cantora estender a roupa no varal. da máquina de lavar, tira peças úmidas que prega acima de si. enquanto canta a música pela terceira vez no dia, chora. 

EU SÓ ACEITO A CONDIÇÃO DE TER —

de repente, a música trava. a voz dela, porém, continua — VOCÊ SÓ PRA MIIIIIIIM — por microssegundos até ela perceber a interrupção. fica envergonhada. olha pela janela para se certificar se alguém presenciou a cena. camuflado atrás de uma samambaia eu seguro a risada, mas esbarro na embalagem de amaciante, que cai no chão. rapidamente, a vizinha olha em minha direção, descobrindo meu esconderijo. não consigo disfarçar. a vergonha que ela sentiu se transporta para mim. antes que me sufoque, entretanto, é apaziguada pela dona da voz desafinada, que sorri para mim com olhos tristes. 

me sinto abraçado.

a tensão se esvai. 

e, enfim, eu choro.

VOCÊ SÓ PRA MIMMMMMMMMM — a música destrava.

me olhando fundo, a vizinha volta a cantar. entendo o convite e abro a boca também. deixo minha voz sair, tão desafinada quanto. choramos e rimos, cada um em sua janela, na invisível dança de uma dor compartilhada. 

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